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A queda da ‘Bahilha’ – Um passeio pela história

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Pois é, meus amigos tricolores e apaixonados pelo clube mais amado do planeta. O clube das trilogias fantásticas e colorida, vocês devem estar se perguntando o porquê do título do texto estranho (outros tipos de títulos andam cada vez mais escassos e distantes), além do uso, talvez inadequado, de “neologismo” para definir a situação em que se encontra o Bahia de hoje, uma fortaleza inexpugnável, intransponível chamada “Bahilha”.

Utilizarei dessa vez a história mundial para perceberem como fatos remotos se entrelaçam com a atualidade fazendo com que a história se repita, ainda que em espaços físicos menores ou até mesmo em guetos, como queiram.

Pois bem, vamos aos últimos acontecimentos em que o Bahia vem se envolvendo. As constantes humilhações de seus torcedores carentes de um time de futebol de respeito e de uma administração competente, transparente e democrata.

A humilhação tem sido lenta e gradual. O que me remete à figura de certo general tupiniquim, mórbido e temido ditador, que um dia ditou as cruéis regras que impediam os movimentos populares em busca da liberdade de ideias e de expressão no país. Aquele que estabeleceu que a abertura do país a recepcionar a democracia seria processada de modo lento e gradual. Costumava dizer: “A distensão será lenta e gradual”. O que não difere muito do ditador que comanda o tricolor, dizendo-se legítimo, por obedecer a regras estatutárias obsoletas, arcaicas e imorais. Aliás, no primeiro caso, a democracia, bem ou mal, lenta ou não, foi instalada no Brasil. Já no caso do Bahia nem esperança se deposita.

Está óbvio que a intenção, diante de uma pressão popular insuportável, no caso do ditador brasileiro, quando se reportava à inevitável abertura, era sair “à francesa”, fechando a porta, apagando as luzes e entregando as chaves da casa de tal modo que inexistissem possibilidades de reforma e, como corolário, obstruiria o revanchismo. Como de fato aconteceu. Ao que parece, essas aulas foram bem absorvidas pelo seu clone na instituição Esporte Clube Bahia, também um ditador que, sob a ameaça da perda do “vitalício” cargo, mas de igual modo sob o manto de uma pretensa “legitimidade”, a meu ver inexistente, como dito antes, quer agora mostrar trabalho, demonstrar boa vontade e, como um traidor, culpar ex-aliados. No entanto, não arreda pé da forma despudorada antes instituída e muito menos demonstra pretender reconstruir os alicerces ora carcomidos.

Não, não haverá renúncia voluntária.

Não esperem torcedores. Como arma em contragolpe, a guerra deverá ser intensa, lenta e gradual, também, para que o resultado seja o esperado. O do livramento eterno dos “eternos” das hostes tricolores.

O Bahia merece este presente.

Vamos fazer um passeio aos parágrafos anteriores para destrinchar um pouco mais acerca do significado dos termos utilizados tais como, “humilhação lenta e gradual”; “saindo à francesa”, “fechando a porta, apagando as luzes e entregando as chaves”, desde que sem possibilidades de reforma.

A HUMILHAÇÃO LENTA E GRADUAL

Trata-se de analogia ao processo de democratização que foi instalado no Brasil, o qual se assemelha ao presente processo no Bahia. Por quê? A resposta é óbvia: Não querem a democracia, porque não querem transparência. Querem evitar, ao máximo, investigações de um passado tão recente que nem se consegue esconder as evidências.

Na verdade, querem tempo para se organizar e, concomitantemente, desorganizar o esquema lá montado. Querem destruir as evidências do fracasso, escondendo-as, substituindo-as por outras. Querem tempo para se livrar de pessoas (leia-se dirigentes e atletas contratados) das quais não podem se livrar facilmente. Para tal mister, precisa-se postergar. Espera-se o tempo que, por sua inexorável natureza, chegará. Aguarda-se a idade em que os contratos cheguem a termo para não mais renová-los, pois rescisão numa crise dessas é inaceitável por quem aceitou as repartidas condições.

No intuito de engabelar uma boa parcela da torcida, promove-se demissão de um “caminhão” de jogadores, alguns até injustamente, mas não se livram dos pesos mortos e dos venenos instalados no Fazendão. A humilhação vem sendo construída ao longo dos anos de modo lento e gradual. Vem sendo calcificada há muito, até que desmascarada recentemente por abusados jornalistas investigativos.
Contrata-se treinador com histórico de aparente ética ou, no mínimo, razoável.

Na história era a mesma coisa.

Eram promovidos “suicídios” improváveis de jornalistas conhecidos; bombas que estouravam no colo de militares, antes do tempo, na porta de um Rio Center lotado de abençoados espectadores, isso porque escaparam de mortes bizarras e cruéis de um tempo que queremos esquecer. Na verdade, não esquecer, mas lembrá-los como forma de aprendizado, para que não mais se repitam. Os prefeitos eram nomeados por seu histórico cruel, de submissão e bajulação. Não, não havia eleição para os cargos executivos. A mordaça era o seu símbolo da submissão, mas havia ainda tantas outras mazelas…

Dito isso, eu questiono: Alguém consegue enxergar diferença entre a história recente do país em busca da liberdade e democracia e o que ocorre no nosso Bahia?

Se não conseguem, têm mais coincidências.

Obras faraônicas e estéticas, sem qualquer objetivo aparente que aglutinasse verdadeira prestação de serviços à comunidade. Desfazimento e negócios que envolvem patrimônio sem qualquer pudor.

E mais, são contratações/renovações improváveis e absurdas; são valores astronômicos para jogadores que não ganhariam tal montante em clube algum; são negócios mal explicados com empresários e empresas do ramo; é a manutenção de pessoas nos quadros diretivos mesmo quando não demonstram mais capacidade para exercê-lo e, ainda mais importante, são as manobras para evitar democratizar o clube, chegando ao absurdo de proibir a entrada de dinheiro limpo dos torcedores através da associação; é a letargia no processo de mudança estatutária, cujo objetivo sempre foi o de se perpetuar no poder.

Os resultados pífios em campo, por certo, não são as humilhações a que me refiro, mas a consequência daquelas. Ser humilhado não é perder de goleadas para nosso maior rival; ser desclassificado na primeira fase da Copa do Nordeste, torneio constituído basicamente por clubes até sem divisão alguma; ou mesmo fazer uma campanha ridícula no Baianinho em que se classificou com a pontuação inferior à da equipe lanterninha do outro grupo.

Se, por um lado, a história nos impediu de honrar a bandeira e o hino de um país, o presente, numa instituição tão importante como o Bahia, tudo isso é fruto do tratamento que nós, seus fiéis torcedores, vimos sofrendo quando nos afastam (a todo o custo) do clube que amamos e não nos permitem participar da sua vida. Tal comportamento está, como dantes, impedindo-nos de empunhar bandeiras e vestir o manto sagrado como símbolo do nosso orgulho. Hoje empunhamos e vestimo-nos de preto, cor oficial do luto, a dedicar aos ditadores uma homenagem ao clube que estão deixando moribundo.

Tudo o que queremos, enquanto ainda há vida e esperança, é criar um Bahia forte, saudável, sem as chagas perniciosas que o cercam.

SAINDO À FRANCESA, FECHANDO AS PORTAS E ENTREGANDO AS CHAVES

No contexto, sair à francesa tem o sentido que todos conhecemos. Saindo às escondidas, sem que sejam percebidos, pelas portas dos fundos. Todavia essa saída estratégica tem um propósito, o de que sejam esquecidos. Nessas horas é bom não serem lembrados, para não serem chamados às falas.

Quanto a “fechar as portas, apagar as luzes e entregar as chaves”, a conotação é diferente do sentido literal.
Seria mesmo como na história do Brasil. Lacrar todas as evidências para que jamais venham a público o conteúdo de uma desastrada e perniciosa administração. Continuaríamos às cegas, pois as chaves não se amoldariam para destrancar os cofres e fazer submergirem os segredos mais escabrosos da história tricolor.

A TRILOGIA DAS CORES

Para se alcançar o objetivo, ou seja, derrubar a ditadura instalada no E. C. Bahia, três são os caminhos a serem seguidos, não necessariamente nessa mesma ordem:
a) O da renúncia;
b) o do caminho judicial;
c) o da força bruta.

Por minha natureza pacífica, prefiro a ordem estabelecida supra. Sem desprezar, todavia, a utilização de outro caminho a ser trilhado com o firme propósito de afastarmos de vez quem nos prejudica, ainda que não pacífico o modo.

Ora, tudo na vida tem limite.

Às vezes um discurso pacifista serve apenas para segurar o ímpeto de quem está a lutar. A paz mundial aqui mais parece discurso de “miss” ao ser entrevistada em pleno dia de concurso de beleza. Sequer Mahatma Gandhi foi exceção. Ele utilizou a força, sim. A do espírito, das atitudes de coragem, para desarmar os opositores.

Pelo andar da carruagem, a primeira das opções, embora a ideal, temo não ser mais possível. Sendo mais contundente, a renúncia é algo improvável, surreal, pois a preocupação se fixa no medo da exposição. Sabe-se que, saindo agora, uma auditoria será inevitável e o tapete será levantado, como deverá fazer aquele que colocarmos no trono.

Diante disso, penso – MGF não renunciará. Vontade própria até imagino possa ter, mas o receio das consequências desse ato é muito maior.

Desse modo, estou em que a pressão deve continuar e se intensificar. Digo mais, deve encorpar. A pressão causada apenas pelas manifestações de raiva do torcedor infelizmente não seja suficiente para fazer com que renuncie ao cargo. Isso, no entanto, não significa que deva cessar, devendo se associar a esse tipo de pressão, outras formas inteligentes de luta, de manobras, de atitudes, tais como, por exemplo, a da denúncia espontânea; a busca de material para encaminhar e encorpar o que já tem sido feito no campo judicial, por exemplo.

Ora, há o processo de intervenção em trâmite e agora com mais chances de sucesso. Há também a representação que se encontra na PGR, em Brasília, confira-se, um ato de extrema bravura e amor ao clube feito por tricolores autênticos que, para nosso orgulho, um deles faz parte do nosso convívio.

Assim, a pressão causada pelas manifestações de torcedores deve perdurar até que o incômodo possa tornar a insustentabilidade do cargo. As embaixadas; as organizadas e os torcedores desorganizados devem se unir, ou continuar unidas, formando um triunvirato do sucesso, pelo bem do futuro do Bahia.

A ordem é esta: Incomodar até o limite extremo.

Onde quer que o Bahia vá jogar, os torcedores do local devem se reunir, realizar manifestações públicas e barulhentas. Os torcedores já demonstraram ser criativos. Formas não vão deixar de existir até que consigamos o objetivo.

Infelizmente, alguns manifestos estão tomando um rumo personalíssimo. Ocorre que tal pessoalidade, não raro, se dá por culpa de quem não quer e nunca quis o debate. De quem repudiou, esbravejou, proferiu xingamentos e tripudiou sobre aqueles que sofriam com os desmandos.

É a lei da física. Não quer de volta, não incite.

Pois bem, ultrapassada a pressão que visa à renúncia, restando esta infrutífera, embora de natureza pacifista, reconheço que, quando não se chega a lugar algum pelo método pacífico usual, outros modos devem ser utilizados, mesmo aquele último e decisivo (o da imposição pela força) não pode ser desprezado. Mas aí as consequências não podem ser repassadas ao torcedor, aos revolucionários, mas aos que se opuseram aos legítimos movimentos que impunham mudanças. Aos que teimaram em não ouvir os reclamos; a aquele que fez pouco caso do sofrimento do torcedor; aos que se recusaram a obedecer à ordem natural e legítima das coisas. Enfim, aos ditadores de plantão.

Como se sabe, não há brigas sem baixas.

Há momentos em que a luta deva ser à “vera”, como diríamos na nossa infância.

Em sendo assim, que as armas sejam empunhadas. A história é recheada de exemplos clássicos. Remonto a um deles, o que me deu a ideia do texto, a Queda da Bastilha, por vários motivos a seguir perfilhados.

No Bahia chamaremos de A Queda da “Bahilha”.

Pois bem, mas o que seria “Bahilha”? Retornemos aos fatos históricos, então.

Vamos falar um pouco sobre o que significou a queda da Bastilha para o povo francês (e como podemos fazer a analogia que envolva o Bahia) que desembocou na Revolução Francesa, muito bem retratada, ou melhor, encenada, pelo mago polonês do cinema Kieslowski, com a sua magnífica obra intitulada “Trilogia das Cores”, mas que cores! Vocês reconhecem? A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha.

De plano, para informar que se tratou do evento decisivo para que se iniciasse a Revolução Francesa, em 1789, esperando, do mesmo modo, que sirva de exemplo no caso do Bahia.

A Bastilha era uma velha fortaleza construída em 1370 e utilizada pelo regime monárquico como prisão de criminosos comuns, a qual, um pouco mais adiante, foi transformada em prisão de intelectuais e nobres que se opunham à ordem estabelecida, quer seja em relação à monarquia, quer política e até mesmo à religião, no caso a católica, religião oficial no período monárquico.

A “Bahilha”, por sua vez, é a fortaleza de Itinga, inexpugnável e intransponível, onde estão guardados, não os presos intelectuais que se opõem à situação administrativa, mas os segredos de uma administração decadente, horrorosa e antidemocrática. Um local que, embora inexistam prisioneiros, precisa passar por uma assepsia geral.

Bastilha, apesar de ser uma prisão, na data em que foi invadida contava apenas com sete presos (que infeliz coincidência essa, logo sete?). A tomada da fortaleza tinha o aspecto prático de resgatar as armas que havia em seu interior e também o aspecto simbólico de ocupar um dos expoentes máximos do absolutismo.

Outros aspectos e coincidências importantes entre a queda da Bastilha e do movimento das torcidas em prol da queda da Bahilha:

a) Ambos os movimentos buscam a extinção do regime absolutista;

b) Conta a partir de agora com a população em geral e não mais de um grupo de pessoas que pretendiam modificar o regime através de leis, estatutos ou regimentos;

c) Ambos os sistemas são divididos em grupos, no caso do francês eram os chamados três Estados: o primeiro compreendia os representantes da nobreza; já o segundo representava o clero católico; finalmente, o terceiro, representava a população em geral. Os dois primeiros grupos votavam quase sempre em conjunto deixando o Terceiro Estado isolado e marginalizado, tornando qualquer proposta de mudança da situação pela via política bastante difícil.
Não é isso mesmo que ocorre no Bahia?

d) Ambos padecem de representatividade política, somada à dilapidação dos cofres públicos promovida pela nobreza e pelo clero, aos problemas econômicos enfrentados pelo país na época, no caso francês, mas que não difere muito do combalido tesouro tricolor.

e) Por fim, a situação torna-se insustentável, o que lançou o povo contra o governo de modo dramático, tomando o controle do país à força, no caso da França, mas que pode, deve e vai acontecer no caso do Bahia.

Assim espero, pois se em 25 de agosto de 1789 a Revolução Francesa aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento de inspiração iluminista que marcou o declínio dos traços do sistema feudal ainda vigente no país, defendendo direitos considerados atualmente básicos e fundamentais, como direito à liberdade, igualdade diante da lei, inviolabilidade da propriedade privada e resistência a qualquer tipo de opressão. Por que não lançarmos uma data para também declarar o Novo Estatuto Democrático dos Direitos dos Sócios do Esporte Clube Bahia, o qual estabelecerá os direitos considerados básicos e fundamentais do torcedor e do sócio, como direito ao voto para presidente, direito à escolha do quadro de conselheiros, e promoverá a defesa da liberdade de opinião, expressão e participação ativa na vida do clube, além de resistência a qualquer tipo de opressão?

A queda da Bahilha é inevitável, mas ainda não tem data marcada. Que seja para ontem!

Na oportunidade, proponho, desde já, uma data para o lançamento do Novo Estatuto Democrático dos Direitos dos Sócios do Esporte Clube Bahia – 31.01.2014. O dia do renascimento do Esporte Clube Bahia, o clube mais amado do mundo.

Viva e Revolução Francesa! Viva a Revolução no Tricolor!

Josedil Carlos Neri Neto, Colunista convidado é da Embaixada caju de aço de Aracaju/SE

 

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