Dante: histórias de um Bahêa

De chorão na infância a 'pagodeiro' na Seleção: histórias do pequeno Dante

Danilo Nascimento, amigo fiel e responsável pela trilha sonora do jogador, conta 'causos' da infância em Salvador e revela torcida de Dante pelo Bahia


Xerifão na zaga, líder com a bola rolando e o responsável por anular Messi nas semifinais da Liga dos Campeões deste ano. Quem vê Dante dentro de campo, seja com a camisa 4 do Bayern de Munique ou da Seleção Brasileira, não imagina como o baiano é fora das quatro linhas. A sisudez necessária a um zagueiro é despida juntamente com o uniforme. A transformação é grande. Do chorão da infância ao moleque responsável por músicas no vestiário e que anima o ambiente com o apelido de 'Zé Pequeno'.

Dante Bonfim Costa Santos está há nove anos na Europa, mas não esqueceu o jeito baiano de ser. De sorriso fácil, não se intimida da mesma maneira. Se o adversário é o melhor jogador do mundo ou a apresentação aos jogadores da Seleção na primeira convocação, todos são tirados de letra. Com receitas diferentes. No caso do primeiro, seriedade e comprometimento tático. No segundo, descontração e música.

Convocado pela primeira vez por Felipão em fevereiro deste ano, Dante chegou tímido, mas não durou muito. Em um dos jantares com o restante do elenco, o zagueiro subiu na cadeira da cabeceira da mesa, usou o garfo como microfone e ensaiou uma coreografia com os companheiros. Ao som da música 'Pam panranram pampam', do cantor Edcity, quebrou o gelo e encerrou a apresentação sendo aplaudido e com guardanapos sacudidos no ar.

Daniel Alves, Lucas e Dante 'tiram um som' na chegada da Seleção

A exibição foi só uma prévia do que o baiano poderia fazer. Fã do samba, é visto constantemente tocando instrumentos ao lado de Daniel Alves. E a animação não fica só nisso. Com a inseparável caixa de som, Dante faz alemães e brasileiros dançarem e cantarem ao som da música baiana. E aí entra em cena o amigo Danilo Nascimento.

– Ele sabe que eu sou mais para o pagode e sempre pede que eu mande para ele os pagodes. Ele gosta, porque ele dança e coloca no vestiário. Eu sou o DJ dele. Toda vez que ele viaja ou alguém da família vai para lá, eu faço um com atualização dos pagodes: Psirico, Harmonia do Samba, Parangolé, Edcity… Vou ver as músicas para mandar agora e, quem sabe, pode ser a música que vai agitar a Seleção, a trilha sonora deles – conta o amigo do zagueiro.

A parceria entre os dois é tão grande que, durante a entrevista do GLOBOESPORTE.COM com Danilo, Dante mandou uma mensagem cobrando o novo repertório. No SMS, o jogador dizia que até Hulk já estava no clima cobrando os sucessos do verão baiano. Mas a assessoria não fica somente no que ouvir antes das partidas:

– Sou eu que ensino as danças a ele. E eles gostam sempre de lançar uma música em campo. Dante sempre pede uma música boa para dançar. Agora, no Bayern, ele dançou uma música do Edcity e outra do Parangolé – conta Danilo aos risos.

Do campo de barro a Munique

Danilo e Dante se conheceram quando já eram adolescentes. Os dois estudavam no Colégio Estadual Odorico Tavares, em Salvador, e moravam próximos. Na época, Dante já tinha passado pela Catuense e treinava no Galícia. Quando conseguiu a liberação do segundo clube, o atual zagueiro passou a treinar junto com Danilo em um campo de barro, que hoje é o estacionamento do estádio de Pituaçu.

Danilo Nascimento mostra foto com Dante na festa do Bayern de Munique

A rotina dos dois era praticamente a mesma. Depois do colégio, voltavam andando para casa para economizar o dinheiro que seria gasto na passagem de ônibus. De tarde, seguiam para Pituaçu de transporte coletivo para os treinos com o técnico Magrão. As terças e quintas, corrida marcada no Dique do Tororó para manter a forma.

– A gente vinha andando do Odorico, passava pelo Teatro Castro Alves, descia o Garcia todo e lá ele quebrava atrás do mercado da Garibaldi, onde tem a área chamada Binóculo, e eu seguia para o Engenho Velho de Brotas. Depois do treino, vínhamos juntos para casa no mesmo ônibus. Na época tinha uma rixa entre o pessoal da Garibaldi e o da Federação, e eu levava ele até o ponto para ele ir para casa. Até segurança eu fazia (risos) – lembra Danilo.

Da época, no entanto, não há registros fotográficos. Danilo destaca que a condição financeira dos dois amigos não era das melhores na infância.

– Não tenho fotos dessa época. Não tínhamos dinheiro para comprar máquinas, e só queríamos mesmo era saber de jogar – conta.

O convívio diário fez com que a amizade crescesse. As famílias se tornaram próximas. Mas o mundo da bola mudou os planos. Dante seguiu peregrinação pelo Brasil. Danilo, depois de passar quatro meses no Vitória, encerrou precocemente a carreira. Nesse período, foram dois anos sem contato.

A dupla só voltou a ser falar quando Danilo soube que Dante estava no Juventude. Passou a acompanhar todos os jogos do time gaúcho, mesmo tendo que rivalizar a televisão com o pai, torcedor do Flamengo. Deste período, guarda a lembrança de uma pixotada do antigo companheiro de treinamento.

<<Sou eu que ensino as danças a ele>>

Danilo Nascimento

– Teve um jogo do Juventude contra o São Caetano que Dante se preparou para dar um chutão e meu pai gritou daqui “Quebra, Dante!”. Só que quando Dante foi quebrar, a bola bateu na canela dele e foi para escanteio. Na hora todo mundo caiu em cima, esculhambou ele todo. Depois de muitos anos, eu comentei com Dante sobre esse episódio. Quando ele chega aqui e vê meu pai, grita logo: “Quebra, Dante!” – ri.

Após um bom tempo acompanhando o amigo só pela televisão, os dois se reencontraram na Fonte Nova. Em um jogo do time gaúcho contra o Bahia, Danilo ficou com amigos até o final e foi para o local onde os jogadores deixam o vestiário. Lá, trocaram os telefones e voltaram a se falar com frequência. Foi nessa época que Dante deixou a função de volante, por conselho de Ricardo Gomes, para se tornar zagueiro.

Com as medalhas de campeão alemão e da Champions League, Dante posa ao lado do amigo Danilo [à direita]

– Quando ele foi para a França, o nosso contato foi via internet. Eu não tinha condição de ligar, e Dante ainda estava se organizando na parte financeira. Na Bélgica, ele ligava para mim, e eu não tinha condição de ligar pra ele. Só quando ele chegou à Alemanha, há quatro anos, foi que eu já tinha minha empresa, e a gente começou a fazer o contato via telefone – comenta Danilo, que, depois de abandonar o futebol, abriu uma empresa de agenciamento de jogadores.O fiel escudeiro nos ônibus da volta dos treinamentos se tornou um amigo para a vida toda. Mesmo com as limitações da distância e do lado financeiro.

A parceria pelo telefone e internet evoluiu com o tempo. Danilo e a namorada já visitaram Dante no Velho Continente em três oportunidades. Na última delas, o amigo foi convidado para a final da Liga dos Campeões. Viu o Bayern levantar a taça, foi para a festa do título, tirou fotos com jogadores e teve até a honra de segurar o troféu da competição. Estava também com o zagueiro quando ele recebeu a notícia de que teria que se apresentar ao Brasil e não disputar a final da Copa da Alemanha.

– Ele estava muito preocupado, porque foi um jogo histórico, no qual nenhum jogador, nenhum clube alemão, nenhum outro time do Bayern, tinha conquistado a tríplice coroa. Isso seria um marco para ele, iria entrar para a história em um ano de Bayern – revela Danilo.

Firulas e reserva no futsal

Com tantas histórias já vividas ao lado de Dante, as que mais fazem Danilo falar com tranquilidade são as do passado. Na época da escola, Dante era considerado bom aluno e deixava de treinar para fazer trabalhos escolares. A timidez, de acordo com Danilo, aparecia somente na hora de procurar pretendes para namorar. No restante, o jogador da seleção brasileira já era tão extrovertido quanto agora. Extrovertido e de choro fácil.

– Ele era chorão, não aguentava muita pressão. Os amigos dele de mais novo falavam que ele chorava sempre, mas ele chorava e ia atrás. Por exemplo, se ele perdesse na bola e o pessoal sacaneasse, ele chorava. Mas ele colocava isso na cabeça e ia em busca do troco – diz Danilo Nascimento.

Amigo posa com camisas dadas pelo zagueiro da seleção brasileira

Nesta época, além dos treinamentos no campo de barro em Pituaçu, Dante também se arriscava no futsal. Só que com características bem diferentes das atuais. Em vez de desarmar jogadas, Dante gostava mesmo era de brincar. O futsal era uma diversão e o estilo estava mais parecido com o de Neymar do que o de um zagueiro xerifão. Por isso, amargava o banco de reservas.

– Teve um torneio de um professor nosso de educação física, Ernesto, de futsal e Dante era nosso reserva. O time era eu, Isac, Jorginho e Gilson. Dante era reserva porque, além de ser mais novo, ele queria muita graça. Ele tinha o futsal como diversão. Ele só entrava para fazer pirueta, dar banho de cuia (chapéu), tabaca (caneta)… Ele tinha uma canhotinha boa. Tinha uma habilidade com uns passes muito precisos. Ele entrava sempre depois e dava conta do recado. Só que era molecão. Gostava de fazer graça e, hoje em dia, ele corta a graça de todo mundo. Que diferença… – compara o amigo de adolescência.

Paixão pelo Bahia desde pequeno

O estilo de Dante mudou muito nesse tempo. As firulas do futsal ficaram de lado. Mas há algo que continua do mesmo jeito ou ainda mais forte: o amor pelo Bahia. Em toda entrevista que dá, o zagueiro faz questão de falar sobre o time baiano. Engana-se quem pensa que a paixão seja apenas da boca para fora.

Dante era torcedor de arquibancada. A Fonte Nova, estádio no qual ele entrará em campo pela Seleção no próximo sábado, era quase que uma segunda casa. Foi da arquibancada do estádio que ele teve um dos momentos mais marcantes como torcedor. Na decisão do Campeonato Baiano de 1994, quando o Bahia perdia para o Vitória e deixava escapar a chance de ser bicampeão até os 43 do segundo tempo, e Raudinei fez o gol histórico (assista ao vídeo). Tricolor campeão e Dante extravasando.

– O tio dele, Jonílson Veloso, conta a história que o jogo que marcou ele [Dante] foi o Ba-Vi do gol de Raudinei, em 94. Dante era novo naquela época. Perto do final do jogo, a galera curtindo que o Bahia não ia ser campeão e ele chorando. O tio ficou tentando consolar e, de repente, saiu o gol do título do Bahia. Na mesma hora Dante levantou e começou a gritar: “Meu Bahêa, p…” – diz contrariado Danilo, que é torcedor do Vitória.

<<Dante é um 'Bahia doente'. Acompanha tudo e se queixa: “Como é que pode o time desse jeito aí, rapaz?! Jogou bem o segundo turno do ano passado e tomou essas goleadas do Vitória… Mas vai melhorar. Vai melhorar”>>

Danilo Nascimento

Mesmo há nove anos fora do Brasil, Dante não deixa de acompanhar o Bahia. De acordo com o amigo, o zagueiro da Seleção Brasileira assiste aos noticiários e acessa o site oficial do clube em busca de informação. A sequência é repetida diariamente para se manter atualizado sobre o clube.

– Dante é um 'Bahia doente'. Acompanha tudo e se queixa: “Como é que pode o time desse jeito aí, rapaz?! Jogou bem o segundo turno do ano passado e tomou essas goleadas do Vitória… Mas vai melhorar. Vai melhorar”. Ele é confiante como todo torcedor do Bahia. Agora ele diz que “está de boa”. Ele me disse: “Dandan, seu Vitória é vice-líder, mas eu estou em sexto, estou de boa”.

Em relação ao time, ele pode até estar “de boa”. Mas o que todos querem mesmo é que, em campo, ele possa desempenhar o papel de xerifão quando precisar. E, quem sabe, Danilo não participe de mais uma comemoração da Seleção Brasileira. Seja pessoalmente ou nas músicas que inspirem a equipe verde-amarela. Até, quem sabe, nas lembranças de possíveis lágrimas de alegria do baiano Dante.

Fonte: Raphael Carneiro – GLOBOESPORTE.COM.

Fotos: Arquivo Pessoal de Danilo Nascimento – Raphael Carneiro e SporTV