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Democracia, taça, erros e crise

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Democracia, taça, erros e crise: gestão Schmidt completa um ano no Bahia

GE.COM analisa os primeiros 365 dias da gestão de Fernando Schmidt, primeiro presidente eleito democraticamente no clube baiano. Veja como foi o ano

"A situação financeira do Bahia é crítica, as dificuldades são gigantescas, a crise é muito grave. O Bahia quase foi destruído pela usura e pela ganância. Está na hora de refundá-lo em bases democráticas, com competência, com transparência, com profissionalismo. Não haverá soluções mágicas nem sou o super-homem. Vamos ter que redobrar os nossos esforços para vencer todas as adversidades”.

Um ano depois, as palavras ditas por Fernando Roth Schmidt no dia 9 de setembro de 2013 ainda fazem parte da rotina do Esporte Clube Bahia. O Tricolor segue em situação financeira crítica. Sem conseguir renda com patrocínio master ou boa média de público nos jogos disputados na Arena Fonte Nova, a agremiação baiana pena para saldar em dia a folha salarial e quitar todos os compromissos com fornecedores. A crise continua e, dentro de campo, o time luta contra o velho fantasma da ameaça de rebaixamento para a Série B. As soluções mágicas não existiram, e Schmidt comprovou que não é super-homem. Em 365 dias, os esforços se multiplicaram, assim como as adversidades, os acertos e também os erros.

Fernando Schmidt; Bahia (Foto: Raphael Carneiro)

Em 7 de setembro de 2013, Fernando Schmidt foi eleito, democraticamente, presidente do Bahia

Com Schmidt, o Bahia tentou manter os pés no chão para trilhar caminho seguro. Por economia, saíram de cena as luxuosas salas de um dos mais modernos edifícios da cidade, localizado no principal bairro comercial de Salvador. O local onde Schmidt recebeu o GloboEsporte.com em dezembro de 2013 para avaliar os seus primeiros dias não faz mais parte da rotina tricolor. Toda a diretoria administrativa agora despacha no Fazendão, centro de treinamento do clube. As salas modestas, mas não por isso menos confortáveis, indicam uma nova era.

Entretanto, o Tricolor também se deixou voar até as nuvens para descobrir que o tombo podia ser dolorido. O Bahia da gestão Schmidt iniciou a temporada com o discurso de que a vaga na Copa Libertadores era possível. A realidade se mostrou bem mais dura. Hoje o Tricolor ocupa a 19ª colocação do Campeonato Brasileiro, na zona de rebaixamento, à frente apenas do Vitória. O time tem o segundo pior ataque da competição nacional e não venceu nenhuma partida no ano por uma diferença superior a dois gols. A folha salarial ficou mais cara, mas o investimento não conseguiu ter o rendimento esperado. As vaias seguem como tônica ao final de cada partida e sugerem a possibilidade do fracasso.

Restando três meses para o fim do “mandato-tampão” de Fernando Schmidt, o GloboEsporte.com relembra os fatos ocorridos nos primeiros 365 dias da atual direção do Bahia. Contratações fracassadas, um título baiano, conquistas para sócios e momentos conturbados no departamento de futebol fazem parte da trajetória de uma gestão que tenta devolver o Bahia ao caminho das glórias, enquanto luta para mostrar que não se perdeu no caminho.

"SOMOS DO POVO UM CLAMOR"

Em agosto de 2013, torcedores do Bahia pediam democratização do clube

No dia 7 de setembro de 2013, Fernando Schmidt foi eleito presidente do Bahia com 67% dos votos. Mais de 5 mil sócios foram até a Fonte Nova demonstrar o desejo de mudança em relação à situação de um clube que vivia havia anos fechado dentro de um mesmo grupo político.

Ao assumir o clube, dois dias depois da eleição, Schmidt fez um discurso forte. Lembrou companheiros de luta pela democracia do Bahia, criticou o que chamou de “ditadura” da antiga gestão. O presidente chamou a data da posse de “dia da liberdade do Esporte Clube Bahia”, homenageou jogadores do passado e conclamou o torcedor a governar o clube ao seu lado. Entre os seus primeiros atos no cargo, Schmidt declarou apoio irrestrito aos jogadores e ao então treinador Cristóvão Borges.

Seu pedido é uma ordem

Eleito pela torcida, o presidente Fernando Schmidt cedeu ao apelo da arquibancada em diversas ocasiões. Até mesmo em algumas situações delicadas, nas quais as decisões de negociações que não envolviam apenas o Bahia já estavam seladas. A pressão surgia, e o Tricolor corria para revisar suas iniciativas. Os casos mais emblemáticos foram o corte de regalias às organizadas e a negociação que levou Feijão ao Flamengo no início deste ano.

Por que um torcedor do comum do Bahia tem que pagar por ingressos enquanto que integrantes de organizadas os recebem de graça? Prática comum na gestão de MGF, a atual diretoria tricolor tentou cortar a regalia, mas não por completo. Tudo começou com uma redução de 2.000 para 1.000 bilhetes doados às organizadas, mas a medida não agradou à imensa nação tricolor, que protestou por meio das redes sociais, pedindo o fim do privilégio. Foi então que a alta cúpula do Esquadrão agiu e decidiu extinguir a prática por completo. A decisão, é claro, não agradou aos principais atingidos. Um reflexo indireto disso pôde ser visto no dia 31 de julho, quando um grupo de 50 torcedores integrantes de uma organizada protestou, na porta do Fazendão, contra a campanha do clube na Série A, tendo como principal alvo justamente a diretoria.

O corte de ingressos para organizadas não foi o único caso em que a pressão da torcida nas redes sociais fez a diretoria recuar. No início da temporada, Bahia e Flamengo abriram negociações para realizar a troca por empréstimo entre Feijão e Rafinha – o negócio também incluía a ida do atacante Lourival e do meia Gabriel, ambos crias das divisões de base, para a Gávea. Os tricolores não gostaram nem um pouco da ideia e atiraram críticas para todos os lados. Em meio a um bombardeio, o clube baiano deu para trás, segurou a negociação, até que a formulou em um novo molde: foi feita apenas a troca de Rafinha por Feijão, ainda que a contragosto da torcida – sem muitas chances no Rubro-Negro carioca, o xodó tricolor voltou ao Fazendão no meio da temporada, enquanto Rafinha é reserva do Tricolor.

"OUVE ESTA VOZ QUE É TEU ALENTO"

Com a nova administração do Bahia, mudanças puderam ser verificadas de imediato no esquema de comunicação com a torcida. Uma das primeiras medidas adotadas pela gestão Schmidt foi a valorização dos sócios no processo de fornecimento de informações dentro do clube: nascia o SMS tricolor, que informava em primeira mão aos associados os nomes dos novos reforços. Antes mesmo que as contratações fossem confirmadas no site oficial do clube, lá estavam as mensagens de texto nos celulares de cada um dos sócios adimplentes. A prática, no entanto, enfraqueceu-se no segundo semestre deste ano: jogadores como Léo Gago, Marcos Aurélio e Alessandro chegaram ao clube sem o SMS prévio.

Torcida do Bahia; Fonte Nova (Foto: Thiago Pereira)

Para entrar na Fonte Nova, sócios do Bahia pagam meia-entrada

Em nova iniciativa para privilegiar os sócios do Bahia, a gestão Schmidt anotou uma conquista em negociação com a Fonte Nova. O programa de sócios era alvo frequente de críticas até a democratização, já que não oferecia grandes vantagens a quem aderia ao plano. Tomando partido dos associados, a nova administração tratou de sentar-se à mesa de negociações e fornecer aos sócios adimplentes o direito de pagar meia-entrada nas partidas do Bahia realizadas na Arena baiana. O número de sócios, que eram menos de mil sob a gestão MGF, saltou para pouco mais de 24 mil – número verificado no torcidômetro do site oficial do clube na noite desta segunda-feira.  

Outro ponto importante no processo de abertura e transparência, inclusive da comunicação, ocorreu três meses após a chegada da nova gestão. Em dezembro do ano passado, a administração de Schmidt divulgou uma lista com o nome e função de cada funcionário no site oficial do clube, uma demonstração clara de corte de gastos. De 360 colaboradores na antiga gestão, o Tricolor passara a contar com 193 funcionários. Oito ex-conselheiros e familiares do ex-presidente Marcelo Guimarães Filho foram desligados do clube.

Comunicação truncada

Mas se a comunicação com a torcida fluiu, o mesmo não se pode dizer de outros departamentos do clube. Prática recorrente em outras agremiações brasileiras, o desencontro de informações dentro do Bahia se manteve. Em diversas ocasiões, porta-vozes oficiais do Tricolor divulgaram dados que tiveram de ser negados logo depois. Um destes casos se deu em julho deste ano, quando foi anunciado pelo clube que o time entraria em campo contra o São Paulo, pela 10ª rodada do Brasileirão, com a camisa tricolor – motivo de discórdia entre o clube e o fornecedor de material, ainda sem estreia até então. Horas após a confirmação da possível estreia do uniforme, o Bahia voltava atrás e cancelava o uso da camisa. Segundo a justificativa oficial, a mudança de planos se devia à necessidade de dar maior destaque à marca de um novo patrocinador, que seria estampada no uniforme.  

Outros casos foram os que envolveram a chegada de jogadores, como Diego Macedo, e a contratação do novo treinador, após a saída de Marquinhos Santos. No caso do atleta, tratou-se da demora de divulgação sobre uma grave lesão do lateral-direito Rafael Galhardo e contratação do suplente Diego Macedo.

Cirurgia de Galhardo foi revelada por fontes do jogador, um dia antes da operação

Em março deste ano, Galhardo se machucou, lesão tratada pelo clube como problema de rápida recuperação. Entretanto, fontes ligadas ao jogador revelaram ao GloboEsporte.com que ele passaria por uma cirurgia no pé, devido a uma fratura, um dia antes que o procedimento fosse realizado. O Bahia não havia divulgado a fratura nem a necessidade de cirurgia de Galhardo, mas já havia se adiantado: na semana anterior à realização da operação, o clube, que já contava com Railan e Madson, havia anunciado a chegada de mais um jogador para o setor, Diego Macedo.  

Em um novo episódio de informação não divulgada pelo clube, um atleta saiu do Bahia e embarcou rumo à Europa sem anúncio no site oficial. Em negociação não foi divulgada pelo Tricolor, o atacante Nadson foi emprestado para o Beira-Mar, de Portugal, mesmo clube que já tinha acertado com o volante Anderson Melo e o também Renan, duas crias das divisões de base que deixaram o Brasil para tentar a carreira em solo português.

Nome de Márcio Araújo chegou a ser confirmado por funcionários do clube

Já no fim de julho deste ano, em meio à novela sobre a chegada de um novo treinador ao clube, funcionários do Tricolor voltaram a apresentar informações desencontradas sobre o desfecho da busca. O nome de Márcio Araújo como novo comandante chegou a ser confirmado a equipes de reportagem para que, horas depois, o diretor de futebol, Rodrigo Pastana, viesse a público afirmar que o treinador não havia sido contratado. Dias depois, o presidente Fernando Schmidt explicou ao GloboEsporte.com o que havia travado as negociações com Araújo, que, de fato, não haviam sido concluídas:  

– Havia negociações adiantadas com ele. Mas, durante a fase final, houve um problema em relação à formação de equipe. Funcionários que ele quer trazer. Além dos custos que isso envolve, precisamos analisar o perfil de cada um para manifestar nossa concordância – avaliou Schmidt.

"SOMOS A VOZ DO CAMPEÃO"

No dia 13 de abril deste ano, Schmidt conquistou mais um título, desta vez de forma especial. O presidente, que já havia conquistado o heptacampeonato estadual na década de 70, venceu o Campeonato Baiano como presidente eleito democraticamente. O título veio após uma certa instabilidade e críticas da torcida e da imprensa ao trabalho do técnico Marquinhos Santos. No entanto, o Tricolor cresceu nos Ba-Vi's, reverteu a vantagem do Vitória e, sem perder clássicos para o maior rival, faturou o 45º campeonato baiano da sua história.

Bahia campeão baiano de 2014 (Foto: Thiago Pereira)

Jogadores do Bahia comemoram título baiano de 2014 

"MAIS UM BAHIA"

Uma das maiores críticas do grupo que gerencia o Bahia atualmente dizia respeito ao tratamento dado pelas antigas gestões ao departamento de futebol. No entanto, 25 jogadores já foram contratados até o momento, além de Sebástian Pinto, anunciado, mas que não chegou a vestir a camisa do clube, e Romagnoli, que tinha um pré-contrato com o Tricolor, mas decidiu permanecer na Argentina. Destes reforços, sete já deixaram o clube – dois deles sem sequer estrear com a camisa do Bahia, Jonathan Reis e Sérgio Raphael. Além disso, três diretores de futebol já passaram no Fazendão desde o começo de 2014 – quatro, se considerada toda a gestão, uma vez que Schmidt manteve, no ano passado Anderson Barros, contratado ainda na gestão Guimarães Filho.

Jonathan Reis e Sérgio Raphael

O atacante e o zagueiro fizeram parte do primeiro pacote de contratações feito pelo Tricolor – junto com eles, foram anunciados também o volante Diego Felipe e o atacante Hugo. Os dois, no entanto, não permaneceram muito tempo no Fazendão. Menos de uma semana depois de apresentado, o GloboEsporte.com apurou que Reis, que teve uma grave lesão em 2010, voltou a sentir dores no joelho e foi dispensado. Já o zagueiro foi dispensado por deficiência técnica, mesmo depois de tentar negociar sua permanência no clube.

Esperança e frustração: passagem relâmpago pela Copa do Nordeste

O ano de 2014 teve início com a esperança da torcida tricolor de que o clube conseguiria bons resultados dentro de campo. Contudo, logo na primeira competição da temporada, o Bahia decepcionou. Pelo segundo ano consecutivo, a equipe baiana foi eliminada da competição regional ainda na fase de grupos e viu times de divisões inferiores avançarem para as quartas de final.

O Bahia terminou a Copa do Nordeste deste ano na terceira colocação do Grupo B, com dez pontos, sete gols marcados e oito sofridos. Apesar de insatisfatório, o desempenho foi superior a 2013, quando o Tricolor conquistou apenas oito pontos, fez seis gols e sofreu oito.

Sebá Pinto e Romagnoli: a busca pelo camisa 9 e o prometido camisa 10

A penúltima colocação na tabela do Campeonato Brasileiro é reflexo direto dos dois principais erros da diretoria tricolor no planejamento do futebol. Jogo após jogo, coletiva após coletiva, Gilson Kleina insiste que falta criatividade e poder ofensivo do Bahia, que tem o segundo pior ataque da competição, com apenas 11 gols marcados em 19 partidas. Era essa também uma das queixas de Marquinhos Santos. Kieza, contratado para resolver o problema de gols do time, só chegou em julho, com a competição em andamento. Antes dele, Marcão, sem sucesso, vestiu a 9. Já a tão sonhada camisa 10, guardada para quando o clube alcançasse a marca de 30 mil sócios, ou para quando o argentino Romagnoli pisasse no Fazendão, ficou órfã. Ou melhor: o número emblemático vestiu o corpo de Marcos Aurélio, atacante de origem, mas que também desempenha a função de meia.

No meio dessa busca por um goleador e um armador de qualidade, a gestão de Fernando Schmidt acaba marcada por duas negociações que fracassaram de forma emblemática. A principal delas envolve Leandro Romagnoli. A novela começou quando o jogador, ainda no início do ano, assinou um pré-contrato com o Bahia. Até aí, tudo bem. O sinal de alerta foi ligado quando o meia, ídolo do San Lorenzo, começou a dar sinais de que estaria arrependido do acordo. Com a obrigação de se apresentar no Fazendão no dia primeiro de julho, El Pipi decidiu permanecer no clube argentino, onde conquistou o título da Libertadores. Após a conquista, apresentou-se ao Tricolor, ratificou o desejo de continuar a defender as cores do time do Papa Francisco e se comprometeu a pagar uma multa de cerca de 300 mil dólares pela quebra do acordo – o Bahia cobrava 500 mil, multa que constava no contrato assinado no início do ano.

Argentino Romagnoli desembarca em Salvador e é recebido com festa pela torcida do Bahia (Foto: Raphael Carneiro)

Argentino Romagnoli desembarca em Salvador e é recebido com festa pela torcida do Bahia

Sebá Pinto foi outro um capítulo conturbado no enredo de contratações do Bahia. O atacante chileno do Bursaspor,da Turquia, chegou a ser anunciado pelo clube, os sócios foram informados do negócio por meio de mensagem de texto, mas o chileno jamais desembarcou no Fazendão. O problema é que, quando tudo já estava acertado, o clube turco decidiu pedir R$ 400 mil para liberar o atleta. O Tricolor baiano se negou a pagar a quantia e o negócio foi desfeito.

O interino de si mesmo e a longa busca por um substituto

No fim de julho, Marquinhos Santos sentou-se no banco de reservas da Arena Fonte Nova para comandar o Bahia na partida contra o Internacional. Nada de diferente do que o torcedor tricolor estava acostumado a ver desde o início da temporada 2014, exceto pelo fato de que o treinador já havia sido demitido. Como interino de si mesmo, Marquinhos Santos revelou que foi ao estádio para “não deixar o Bahia na mão”, uma espécie de favor para o clube que não havia feito planos para a possibilidade de uma troca de comando.

Marquinhos Santos comandou o Bahia mesmo após ter sido demitido

– Conversamos logo após a partida contra o Corinthians. Mas sou profissional, para não deixar o Bahia na mão fiz esse jogo. Mediante a situação do Bahia, sabia que seria inevitável a demissão. Encerra-se uma passagem, vida que segue – disse o técnico no anúncio da demissão, feito três dias após a derrota por 3 a 0 para o Corinthians, pela Copa do Brasil.

A saída de Marquinhos Santos iniciou uma novela no Tricolor. O clube abriu tratativas com Márcio Araújo e Gilson Kleina. O salário se tornou uma barreira para a contratação do ex-técnico do Palmeiras, e Márcio Araújo ganhou força no Fazendão. Segundo funcionários do clube, o acordo esteve praticamente selado, mas, de uma hora para outra, os traços de teledramaturgia se fizeram presentes. Em uma reviravolta da trama, Kleina voltou a ganhar força. Houve consenso na parte financeira, e o Bahia aceitou uma imposição do treinador: por força de uma cláusula contratual com o Palmeiras, ele só poderia acertar com um clube em agosto. Pelo técnico, o Tricolor topou esperar.

Enquanto isso, Charles Fabian, que era técnico do time sub-20, foi promovido a interino para gerir um time sem comandante e adicionou novas possibilidades. Com bom rendimento à frente da equipe – três partidas, com dois triunfos e um empate -, o ex-atacante conquistou parte da torcida. A efetivação chegou a ser cogitada, mas, no capítulo final, a diretoria tricolor optou pela aposta na experiência. Kleina foi contratado e Charles se tornou auxiliar efetivo do clube, com a possibilidade de ser o protagonista no futuro.  

Cidade Tricolor em desuso

Idealizado e construído pelo antigo presidente do Bahia em um contrato não muito claro, a Cidade Tricolor ainda não viu a cara do Tricolor. Mesmo com o novo centro de treinamentos pronto, o clube não tem uma definição do que fazer com ele. Localizado em Dias D'Ávila o equipamento está à espera dos jogadores para passar a ser utilizado.

Durante o ano, Fernando Schmidt informou que o Fazendão foi permutado com a Cidade Tricolor e que a intenção da diretoria era de ficar com os dois centros de treinamentos. Negociações com a empresa responsável pelas obras foram iniciadas, mas não houve uma definição até então.

"MAIS UM TÍTULO DE GLÓRIA"

Em março de 2014, a gestão Schmidt teve uma das iniciativas mais celebradas pela torcida. O clube divulgou a “lista do jabá”, série de documentos que comprovava o pagamento de estadias, passagens e outras regalias, que teriam beneficiado, além de membros da imprensa, familiares e amigos do ex-presidente Marcelo Guimarães Filho.

De acordo com o levantamento realizado pelo Tricolor, entre 2006 e 2013, foi gasto um valor total de R$ 486.894,82 com serviços como publicidade em programas de rádios baianas e peças publicitárias contratadas com empresas de marketing esportivo. O relatório inclui também R$ 378.142,91 pagos em passagens aéreas para radialistas, jornalistas, parentes e pessoas próximas a Marcelo Guimarães Filho.

Recuperação de parte dos direitos de Talisca, joia da base do Bahia

Anderson Talisca foi vendido ao Benfica

Quando assumiu o Bahia com a missão de preparar o terreno para a nova diretoria, o interventor Carlos Rátis encomendou uma auditoria para fazer uma devassa nas contas dos clubes. E uma das informações que vieram à tona com o relatório causou calafrios no torcedor: o passe do meia Anderson Talisca havia sido fatiado entre empresários, e ao Bahia não sobrou qualquer porcentagem para contar história. Logo Talisca, uma das joias mais promissoras saídas das divisões de base nos últimos anos.

Só que Fernando Schmidt e a alta cúpula tricolor deram um jeito de amenizar um dos maiores pecados da gestão de Marcelo Guimarães Filho. Com uma forte articulação de bastidores, o Bahia conseguiu reaver 50% do passe de Talisca, e, desta forma, o clube recebeu cerca de R$ 6 milhões, metade do valor pelo qual o meia foi negociado com o Benfica – a outra metade do valor ficou dividido da seguinte forma: 20% do empresário Carlos Leite, 10% da Chácara Celeste, 10% da Astro e 10% da Bahia Soccer.

– Quando assumimos, em setembro, o Bahia tinha 0% dos direitos econômicos do garoto… Agora, conseguimos reverter isso e ficar com 50% do valor do negócio – afirmou Schmidt após o anúncio da concretização da venda.

Economia para o clube: rescisões com jogadores pouco aproveitados

Heranças da gestão de Marcelo Guimarães Filho, afastados do elenco principal na era Schmidt, os experientes Souza, Neto e Kleberson representavam um peso aos cofres tricolores. Juntos, os três atletas recebiam quase R$ 500 mil por mês e tinham contratos firmados até o final de 2014 com o clube. A diretoria, então, empenhou-se em negociar a rescisão dos jogadores e conseguiu economizar cerca de R$ 1,7 milhão nessa empreitada, ainda que continue pagando parcelas do acordo.

Renegociação de contrato com fornecedora de material

Boa parte da gestão de Fernando Schmidt foi permeada pela guerra nos bastidores com a Nike. As divergências entre Bahia e a fornecedora de material esportivo tiveram início no ano passado, apesar de o contrato com a empresa ser motivo de insatisfação por parte da torcida desde a gestão MGF. Em dezembro de 2013, o diretor de negócios tricolor, Pablo Ramos, manifestou o descontentamento com o serviço prestado, já que o clube não tinha materiais exclusivos e os uniformes lançados eram cópias de modelos utilizados por equipes europeias.

Insatisfeita, a direção do Bahia tentou romper o contrato de forma amigável, sem pagar os R$ 2 milhões de multa previstos em caso de rescisão unilateral. O acordo, entretanto, não saiu, e o Tricolor continuou ligado à fornecedora de material. No início deste ano, a relação entre as duas partes ficou mais conturbada. O ex-presidente do clube, Marcelo Guimarães Filho, divulgou uma camisa que ainda não havia sido lançada, o que levou o Bahia a notificar a Nike.

bahia camisa (Foto: Reprodução)

Camisa de treino sem o padrão tricolor deixou torcida insatisfeita

Recentemente, a empresa lançou mais duas camisas e novamente desagradou os dirigentes do Bahia. Os uniformes, duas camisas de treino, foram confeccionados nas cores azul, branco e preta – o que levou à revolta de parte da torcida, insatisfeita por não ver no uniforme o tradicional padrão azul, vermelho e branco. Em nota, a Nike afirmou que o uniforme havia sido aprovado durante a gestão de Marcelo Guimarães Filho. Em entrevista ao GloboEsporte.com, o ex-presidente disse que não havia sancionado o lançamento das camisas e classificou  o material como "de extremo mau gosto".

Em maio deste ano, clube e fornecedora finalmente entraram em acordo. A ligação entre a empresa e a agremiação baiana, que se encerrava em dezembro de 2015, passou a ser válida até o fim deste ano. Nenhuma contrapartida por parte do Bahia foi confirmada para facilitar a antecipação. Contudo, o Tricolor passou a utilizar dois uniformes que ainda não haviam sido usados em partidas oficiais.

Na ponta do lápis: tentativa de estabilidade financeira

Reub Celestino se esforça para manter salários em dia

Os atrasos salariais do Bahia se tornaram um hábito comum na história recente do clube. Ao assumir o departamento financeiro tricolor, Reub Celestino afirmou que o Tricolor tinha por prática pagar os vencimentos na segunda quinzena do mês, em vez do quinto dia útil, conforme estipula a lei. Para 2014, um esforço foi feito na tentativa de regularizar a vida econômica tricolor. Em uma de suas primeiras medidas, ele parcelou o pagamento do 13º salário do ano passado dos jogadores. Em boa parte do primeiro semestre de 2014, os salários foram pagos em dia. Contudo, os problemas econômicos voltaram a atormentar a agremiação.

Recentemente, o ex-diretor de futebol do Bahia, Ocimar Bolicenho, admitiu que o clube devia o pagamento da premiação pela conquista do Campeonato Baiano aos atletas. Jogadores e diretoria haviam acordado que a premiação do estadual seria paga em parcelas. Entretanto, Bolicenho afirmou em julho que um bloqueio financeiro inesperado impediu que o clube arcasse com o compromisso. O atraso no pagamento levou à realização de uma reunião entre elenco e diretoria no início de julho.

"SOMOS DA TURMA TRICOLOR"

O mandato também foi marcado por divergências internas da diretoria. A começar por um dos nomes mais ativos dentro do Tricolor: Sidônio Palmeira. O publicitário criou o movimento Bahia da Torcida, antes mesmo da intervenção no clube, e esteve ao lado do interventor Carlos Rátis durante todo o processo de transição. Com a eleição de Fernando Schmidt, ele ganhou o cargo de assessor especial da presidência, mas sua participação no Esquadrão não durou muito tempo. Antes mesmo do Campeonato Brasileiro, o assessor se afastou do dia a dia da equipe.   

A missão de tocar o futebol, então, ficou centralizada com o vice-presidente, Valton Pessoa. Contratações, negociações e demissões eram tomadas de acordo com o pensamento do dirigente, que perdeu espaço por decisão de Fernando Schmidt, logo após a demissão de Ocimar Bolicenho.  

Além das divergências no que diz respeito ao futebol, o clube viveu diversos momentos de turbulências no setor financeiro. Chamado para resolver as pendências do Bahia, Reub Celestino, responsável por liberar verba para contratações e pagamento de salários, enfrentou problemas constantes com outros diretores da agremiação. Um destes problemas surgiu quando ele revelou os valores da negociação com o argentino Leandro Romagnoli. O pré-contrato tinha uma cláusula que impedia a divulgação da luva paga pelo clube e da multa prevista inicialmente.

Em meio a tudo isso, Fernando Schmidt tentou fazer o papel de mediador. Não expôs nenhum de seus dirigentes e administrou conflitos internos.

Sem marca no peito, sem dinheiro no bolso

Camisa do Bahia traz marca do plano de sócios no peito

Para o torcedor, a camisa limpa, sem patrocínios, é um colírio para os olhos. Para o clube, contudo, a ausência de marcas no uniforme significa prejuízo. E o Bahia descobriu isso nesta temporada. O Tricolor não conseguiu fechar acordo para que uma empresa estampasse a logomarca no peito da camisa, o espaço principal, chamado de patrocínio master. Como resultado, a agremiação ficou sem uma importante fonte de receita.

Sem certidões negativas, o Tricolor não conseguiu um acordo com a Caixa Econômica Federal. No início do ano, o clube tentou utilizar a Federação Bahiana de Futebol (FBF) como mediadora do processo. O plano, entretanto, não deu certo. Para não jogar de camisa limpa, o Bahia tem atuado com a marca do plano de sócios do clube na parte frontal do uniforme.

Suspensão de novos títulos de sócios a três meses da eleição

Entre pontos positivos e negativos, a administração Schmidt caminha para ser encerrada com uma polêmica. O Bahia anunciou, no último fim de semana, a suspensão da emissão de novos títulos de sócios até a próxima eleição, que será realizada em dezembro. De acordo com o Tricolor, a medida tem o objetivo de “blindar o clube do chamado abuso do poder econômico, isto é, quando candidatos promovem uma associação em massa, às vésperas do pleito, para tentar vencer de forma antidemocrática”.

No entanto, a iniciativa, aprovada por unanimidade pelos conselheiros presentes em reunião, vai de encontro ao perfil adotado pela diretoria desde o ano passado, quando assumiu o clube. Desde então, diversas campanhas foram feitas para fazer com que o torcedor virasse sócio da agremiação.

Com essa medida, a eleição do final do ano acontecerá de forma diferente da que foi realizada em 2013. Na ocasião, o interventor Carlos Rátis abdicou da utilização do antigo estatuto do clube para realizar o pleito com base na Lei Pelé. Com isso, mais de 14 mil pessoas que se associaram entre julho e setembro de 2013 puderam escolher o presidente do Bahia naquela que foi a primeira eleição direta do Tricolor.

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