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Dilma Rousseff: Esportes, reformulação do futebol e Olimpíadas

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Dilma fala em reformulação no futebol, mas foca em resultados na Olimpíada

Dilma Rousseff, presidente do Brasil e candidata a reeleição (Foto: divulgação)

Quando o PT se elegeu, em 2002, o futebol brasileiro vivia um momento delicado. Muitos clubes tinham acabado de renegociar suas dívidas e vendiam jogadores para qualquer clube que fizesse uma proposta razoável. Era o momento que se vendia jogadores para qualquer Saturn da vida, sem conseguir segurar os melhores jogadores por muito tempo nos clubes. Ainda se vivia o reflexo da era das parcerias mal feitas, como a ISL, e também se sentia a crise do dólar. São 12 anos de governo do PT desde então, o futebol brasileiro mudou e o governo, de novo, está em processo de renegociação das dívidas com os clubes. Falamos sobre esse desafio para o próximo presidente na primeira reportagem desta série. O Brasil mudou, o futebol mudou e os problemas também mudaram.

O governo da presidente Dilma Rousseff, agora candidata à reeleição, teve uma grande responsabilidade em relação ao futebol: a realização da Copa do Mundo. Quando foi eleita, em 2010, o Brasil já estava muito atrasado em relação à preparação e o desafio era fazer uma grande Copa do Mundo. Apesar de só 53% das obras de infraestrutura terem ficado prontas antes da Copa, o evento foi um sucesso de público e de organização também. Os problemas durante o Mundial foram menores que o esperado, ainda que a estrutura aeroportuária ainda deixasse a desejar em várias cidades.

A expectativa era alta e a Copa do Mundo acabou sendo um sucesso fora de campo. O excesso de gastos, porém, ainda foi alvo de muita crítica – foram R$ 28 bilhões, incluindo nessa conta não só gastos do governo federal, mas também dos estados e municípios. Aqui na Trivela, falamos sobre de onde vem o dinheiro para a construção e reforma dos estádios da Copa do Mundo, por exemplo.

Dilma Rousseff sucedeu Lula, um dos principais articuladores para trazer a Copa do Mundo e a Olimpíada para o Brasil. Analisamos o programa de governo de Dilma Rousseff para saber quais as propostas relativas a esporte e, especificamente, o futebol. O programa de Dilma tem como base três pontos usados em campanha: solidez econômica, amplitude de políticas sociais e competitividade produtiva. O esporte está inserido principalmente na amplitude de políticas sociais, pelo papel que pode exercer na sociedade. Mas o esporte, e o futebol especificamente, também se inserem em termos de competitividade produtiva. Afinal, é uma indústria bilionária que tem que ser tratado como tal, porque gera emprego, impostos e renda. O que procuramos no programa é saber o que a atual presidente propõe em termos de política esportiva e como as mudanças econômicas propostas podem afetar o futebol como indústria. São esses pontos que procuramos no programa de Dilma e que você vê abaixo.

Políticas esportivas

Quando se fala em política esportiva, ela está ligada à política educacional. No programa de Dilma são mostrados vários dados relativos ao que foi feito pelo governo em termos de educação e projeta avanços, como a escola em tempo integral.

Os municípios passaram a ser apoiados no processo de expansão de vagas para a educação infantil. No governo Lula, foi contratada a construção de 2.543 creches e, no governo Dilma, até maio de 2014, mais 6.036 creches tiveram recursos autorizados pelo governo federal. Nossa tarefa é garantir a todas as nossas crianças, desde cedo, os estímulos pedagógicos e cuidados de qualidade tão necessários à sua formação. A expansão da educação em tempo integral nas escolas públicas tornou-se prioridade para o governo federal. Antes do governo Lula, praticamente não havia apoio aos Estados e municípios para oferecer atividades pedagógicas no contraturno escolar. Ao final do governo Lula, 10 mil escolas já ofereciam educação em tempo integral. No governo Dilma já são 49 mil escolas em tempo integral.

Uma escola em tempo integral precisa ter atividades esportivas, mas elas não são especificadas no programa da candidata. O trecho que fala especificamente do esporte é bastante vago e não apresenta uma proposta específica sobre uma política nacional esportiva. Por outro lado, o texto fala em modernização do futebol, algo que a presidente já se mostrou disposta a ouvir e participar, como mostraremos adiante. O programa de Dilma fala sobre o esporte de maneira genérica, como se vê no trecho abaixo:

O esporte cada vez mais tem se tornado uma política pública com potencial para gerar riquezas, empregos e com muita capacidade de mobilizar nossas crianças, adolescentes e jovens como caminho complementar na construção de oportunidades. Desenvolver um sistema nacional de esportes que integre as políticas públicas entre os entes federados é prioridade. É urgente modernizar a organização e as relações do futebol, por exemplo, nosso esporte mais popular.

Não há descrição sobre como será essa política, tão importante. A modernização do futebol é algo fundamental, mas também não há nada sobre isso especificamente. Sobre o esporte mais popular, como descrito no programa de Dilma, há a avaliação positiva sobre a organização da Copa do Mundo, o maior desafio na área esportiva que o seu governo enfrentou. O sucesso na organização e no transcorrer da Copa foi bastante ressaltado.

A organização e a realização da Copa do Mundo demonstram que o Brasil está preparado para sediar grandes eventos esportivos, culturais, de integração econômica, ou qualquer outra atividade de mobilização internacional. A Copa das Copas antecipou investimentos urbanos, modernizou nossa infraestrutura esportiva, gerou investimentos em aeroportos e receptivos para o turismo. A realização da Copa do Mundo no Brasil é a vitória política de um país que tem vencido a crise econômica internacional com geração de empregos e distribuição de renda, é a vitória de um país que hoje é respeitado internacionalmente, é vitória da confiança na capacidade do povo brasileiro e a derrota do pessimismo.

Como a Olimpíada de 2016 será no Rio de Janeiro, daqui a só dois anos, o projeto de governo da atual presidente caso seja reeleita tem como foco na área de esporte as modalidades olímpicas e a preparação para o evento esportivo. As propostas mais efetivas do governo em relação ao esporte são todas em relação à Olimpíada, com objetivo claro de conseguir resultados imediatos, com conquista de medalhas e melhor posição no quadro geral.

Em 2016, sediaremos as Olimpíadas, evento que fará com que, mais uma vez, os olhos do Mundo se voltem para o Brasil. Na área de esportes, este será, certamente, o maior desafio nos próximos anos.

Além dos investimentos na organização dos Jogos e na infraestrutura de equipamentos olímpicos, assumimos, em parceria com o Comitê Olímpico Brasileiro e o Comitê Paraolímpico Brasileiro, o desafio de proporcionar condições para que o Brasil figure, em 2016, entre os dez primeiros colocados nos Jogos Olímpicos e entre os cinco primeiros nos Jogos Paraolímpicos. Para isto, estamos implementando o Plano Brasil Medalhas 2016 que, com investimentos de R$ 1 bilhão, estimulará 21 modalidades olímpicas e 15 paraolímpicas no ciclo olímpico de 2013 a 2016.

Garantir a plena execução do Plano Brasil Medalhas será uma de nossas prioridades no próximo mandato. Também daremos continuidade aos investimentos para construção dos Centros de Formação Olímpica em todo o Brasil, inclusive o Centro Paraolímpico Brasileiro, em São Paulo, que será referência para a América Latina e garantirá a nossos atletas paraolímpicos uma infraestrutura de preparação à altura da sua excelência.

Daremos continuidade ao Bolsa Atleta, auxílio financeiro que permite a nossos jovens atletas se dedicarem com afinco à sua formação e aprimoramento técnico. Avançaremos também na construção de 285 unidades dos Centros de Iniciação ao Esporte (CIE) em 163 municípios de todos os Estados e no Distrito Federal. Estes centros propiciarão infraestrutura adequada ao surgimento dos futuros talentos esportivos brasileiros, e elevarão a um novo patamar as condições e a estrutura para a prática dos mais diversos esportes em nosso País.

Como tem sido constante, o dinheiro gasto é mais na ponta final do esporte, no alto rendimento, e não na formação de base e no esporte como forma de inclusão social efetiva. Investir em bolsa atleta e em remuneração dos melhores atletas é uma política de cobertor curto, porque não forma um ciclo virtuoso. A formação de atletas continua prejudicada, porque os atletas que recebem o benefício já estão no topo de uma pirâmide difícil de escalar. Será importante para o país ter uma política de base, para que haja formação. O governo, como faz repasses a modalidades olímpicas como um todo – o futebol é uma das poucas exceções a não receber verba pública, justamente para não ser fiscalizado – , faz repasses de dinheiro público, como das loterias, por exemplo. É preciso exigir que esse dinheiro seja para formação, infraestrutura e melhorias na gestão. Nesse aspecto, o programa de Dilma não traz nenhuma referência. O futebol é o único esporte citado, mas o programa não diz como a presidente pretende modernizar a gestão do esporte mais popular do país.

É bom lembrar que o esporte é mais do que formação de atletas. O programa da atual presidente mostra que sabe disso e que tem essa como uma prioridade. Resta saber quais serão as ações, já que as propostas não foram apresentadas. O esporte precisa ser uma política de base, com o esporte sendo uma forma de educação, de inclusão, de saúde e, por fim, de formação de talentos para o esporte de alto rendimento, que será a menor parte. A prioridade está sendo o topo da pirâmide, não a base. Um problema histórico que a proposta da atual presidente não parece atacar.

Perspectiva futura

Se nas propostas Dilma não apresentou nada que possa ser visto como uma melhora, há outras áreas que o atual governo agiu.  A presidente se mostrou disposta a se reunir com o Bom Senso FC, movimento dos jogadores que visa melhorias no futebol brasileiro. Ela se reuniu duas vezes, em junho e em julho, para ouvir ideias e se mostrou preocupada com a situação, além de prometer ação.

Em julho, no segundo encontro, jogadores e a presidente, junto ao ministro do esporte, Aldo Rebelo, falaram sobre três pontos: a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que está em pauta no Congresso Nacional, a regulamentação da participação dos atletas nas assembleias das entidades esportivas e a criação de um Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol. São pautas importantes que a presidente pode articular politicamente para que sejam colocadas em discussão nas instâncias governamentais para que saiam propostas efetivas. Também é sabido que o governo não tem poder de intervenção direta, como já explicamos, mas tem uma importante vantagem para exigir que essas mudanças estatutárias e de regulamentos de competições aconteçam: é o principal credor dos clubes, que devem muito em tributos.

A relação do governo com a CBF não é boa, mas o governo de Dilma não se colocou contra os gestores. No começo da sua administração, a presidente evitou Ricardo Teixeira e José Maria Marin, mas acabou aparecendo ao lado do dirigente em algumas oportunidades, especialmente por causa da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Com o Mundial no horizonte, o governo optou por não entrar em um confronto direto com a CBF, ainda que tenha deixado clara a sua insatisfação em diversos momentos. A relação com a Fifa e com a CBF, porém, foi bastante complicada, com trocas de acusações sobre responsabilidades em alguns momentos.

Com o fim da Copa, a postura do governo como um todo foi mais agressiva em relação à gestão do futebol no Brasil, o que, claro, desagradou os dirigentes. A CBF, como instituição, apoia Aécio Neves para a presidência. Com a ideia do governo de uma participação maior do governo, como falamos na matéria de abertura da série, as relações tendem a ficar ainda piores. Resta saber se Dilma, se for reeleita, terá coragem e força política para exigir mais transparência usando a carta da renegociação das dívidas dos clubes. Por enquanto, as declarações foram positivas em relação a isso, mas nenhuma ação efetiva foi tomada. Mantendo-se como presidente, veremos se as ações sairão do papel. Sabendo que o Bom Senso ganhou popularidade, a presidente sabe que pode ser algo a seu favor para exigir as mudanças. Por outro lado, ela terá que enfrentar a oposição dos dirigentes e da bancada da bola, que costuma trabalhar pelos interesses da CBF no Congresso Nacional.

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