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Empresários cobram até para dar ‘Bom dia’; clubes não querem mais pagar

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Agentes cobram até para renovar com atleta. Clubes não querem mais pagar

A cena tornou-se comum em clubes brasileiros, mas quase sempre gera polêmica. O diretor chama o jogador que já tem alguns anos de casa para renovar contrato e no final das tratativas paga 10% do valor da negociação para o empresário contratado pelo atleta.

Casos assim, quando chegam aos ouvidos de conselheiros, geram protestos, acusações de desperdício de dinheiro e até pedidos de investigação interna. Pressionados, diretores de clubes alegam que se tornou normal os atletas passarem para as agremiações a conta que eles deveriam pagar referentes ao trabalho de seus agentes, e iniciam um movimento para tentar colocar fim à prática.

O Corinthians é um dos clubes em que o tema mais causa debates atualmlente. Em julho, o clube renovou com Cássio e Gil, pagando comissão ao empresário Carlos Leite, também remunerado na contratação de Mano Menezes, seu cliente.

Conselheiros da oposição e da situação entendem ser desnecessário pagar um intermediário para acertar com atletas que já estão no time ou para negociar com um técnico que é amigo de outros carnavais do presidente Mário Gobbi.

Há mais casos. Gilmar Veloz, empresário de Tite, velho conhecido do clube, também recebeu comissão na volta do treinador ao Parque São Jorge. Cartolas alvinegros afirmam que até na troca entre Pato e Jadson, que não envolveu dinheiro, precisaram botar a mão no bolso. Contam que pagaram R$ 780 mil de comissão. Essa operação também é alvo de críticas de conselheiros.

“Foi um excelente negócio para as duas partes, uma negociação muito difícil, em que trabalhei muito. Por todo envolvimento, toda repercussão, por todo assunto que gerou para a mídia, o mínimo que eu teria que ter era uma comissão. Acho que foi pouco perto de tudo que isso envolveu. E ainda nem recebi”, disse Bruno Paiva, empresário que intermediou a troca feita entre São Paulo e Corinthians. Ele não revelou quanto sua empresa recebeu pelo negócio.

O clube do Parque São Jorge, como os demais, também paga comissão quando compra o jogador, não apenas quando vende. Para trazer Lodeiro, ex-Botafogo, o alvinegro desembolsou cerca de R$ 1,4 milhão.

“No mundo ideal, não é o clube que deveria pagar comissão quando compra um jogador ou renova. Acho que tem que mudar, mas é assim há muito tempo. Com todos os empresários, a primeira condição numa negociação é pagar a comissão deles. O Roberto [de Andrade, ex-diretor de futebol do Corinthians], dizia que, se você não pagar, o agente leva o atleta para outro clube”, afirmou ao blog Ronaldo Ximenes, diretor de futebol do Corinthians.

Recentemente, o Corinthians viu a exigência de comissões chegar ao extremo. Na venda do volante Guilherme, agenciado por Giuliano Bertolucci, a diretoria fez as contas e viu que teria prejuízo. Precisaria gastar cerca de 40 mil euros com comissão. A direção, então, bateu o pé para pagar apenas 30% da comissão, já que essa era sua participação nos direitos econômicos do atleta. Os parceiros eram empresários e o BMG. Assim, o alvinegro conseguiu ficar com uma quantia da venda, feita por cerca de 4 milhões de euros.

Os gastos com comissões, já viraram alvo de questionamentos feitos por escrito por conselheiros da oposição corintiana, caminho que o Palmeiras conhece bem, e de longa data. Depois de muito barulho, uma auditoria foi feita e entregue ao então presidente Arnaldo Tirone no final de 2011.

O trabalho da Torga Consultoria mostra que o Palmeiras se comprometeu a pagar R$ 11,7 milhões em comissões para empresários em 29 operações com atletas e na contratação do técnico Luiz Felipe Scolari. Média de R$ 390 mil por negócio. O alviverde remunerou agente até para fazer a troca entre Leo e Leandro Amaro com o Cruzeiro. Só nessa operação, a comissão para três empresas de agentes foi de R$ 850 mil.

“As negociações, chegaram a um nível intolerável. O empresário multiplica o salário do jogador por 13 e pede comissão de 10% sobre o valor total. Quer comissão até sobre o 13º salário. Você acerta, chama a imprensa, diz que o jogador renovou, daí o agente fala: ‘agora quero uma parte dos direitos econômicos’, disse Vilson Ribeiro de Andrade, presidente do Coritiba . O dirigente lidera os cartolas nas discussões da lei sobre refinanciamento das dívidas fiscais dos clubes.

Andrade defende que, em conjunto, os clubes deixem de pagar os empresários, repassando a conta aos jogadores. “É um absurdo, o cara é empresário do jogador, então, que receba do jogador. Em média, o gasto com comissões representa 10% das receitas dos clubes. Os dirigentes estão conversando, caindo na real sobre as distorções do mercado. Se todos começarem a deixar de pagar, os empresários vão ficar preocupados”, afirmou Andrade.

Ataíde Gil Guerreiro, vice-presidente de futebol do São Paulo, apoia um movimento contra o pagamento de comissões. “No meio empresarial não tem isso. Se eu quero contratar um advogado, contrato um ‘headhunter’ [especialista em encontrar profissionais para empresas], combino um preço e pago pelo serviço dele. Se eu quiser renovar o contrato com o mesmo advogado, não preciso pagar mais para o headhunter”, declarou o dirigente são-paulino.

Guerreiro afirmou que desde que assumiu o cargo, em abril, só renovou o contrato de Rafael Toloi, sem precisar pagar comissão e que vai estudar casos futuros. “Não posso ir sozinho contra a maré. Mas, se o Vilson já levantou essa bandeira [contra as comissões], ele conta com a minha vontade”, completou o cartola tricolor.

Os empresários se defendem. “Se o dirigente chega pra mim e pede ajuda pra renovar o contrato de um jogador que eu represento, então tenho que receber do clube. Já teve casos em que recebi 5% do atleta e 5% do clube porque trabalhei para os dois. O importante é não cobrar porcentagens absurdas” disse ao blog Pepe Dioguardi, agente de Kléber e Ganso, entre outros.

“Existem várias formas de comissão. O jogador pode até pedir 10% a mais e ele mesmo pagar o agente. Depende de como você trabalha. Eu trabalho de forma transparente. Nossa empresa tem uma filosofia de agregar ao produto [o jogador] do clube. Temos assessoria de imprensa, ensinamos o atleta a se posicionar melhor. A única regra hoje é que os clubes não estão pagando ninguém. Assinam o contrato, mas no dia combinado não pagam a comissão”, afirmou Bruno Paiva, agente que tem Jadson em sua lista de clientes.

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