Torcidabahia
Uma grande torcida, merece um grande site

Em entrevista, Léo fala sobre dificuldades, racismo e vinda ao Bahia

No dia do seu aniversário de 22 anos, lateral concedeu entrevista ao jornal Correio

Léo concede entrevista (Foto: Evandro Veiga/Correio)
247

No último dia 6 de março, o lateral-esquerdo Léo concedeu entrevista exclusiva ao jornal Correio. A data é especial para o jogador, que completava 22 anos de idade naquele dia. Mesmo bastante jovem, o lateral já passou por bastante coisa nesta vida: após uma infância difícil, ele se tornou jogador de futebol, atuou ao lado de Ronaldinho Gaúcho e Fred e conheceu Pelé, com quem cuja semelhança lhe deu o seu apelido.

Na entrevista, Léo se emocionou e chorou relembrando um caso de racismo sofrido na sua infância. Mas, principalmente, sorriu ao falar sobre a sua filha e mostrou que é uma pessoa bastante feliz.

Você tem uma filha de 4 meses. Ser pai aos 22 anos mudou muito sua cabeça?

Um filho acho que muda tudo. Graças a Deus sempre fui muito centrado e, quando Luísa nasceu, parece que te dá mais responsabilidade ainda. Você passa a ser um cara mais sério, tudo que faz já pensa na sua filha, na sua família, posso dizer que ela foi o meu maior presente.

Você morava em São João do Meriti, na Baixada Fluminense. Como é ver no noticiário a violência no Rio de Janeiro, a ponto de haver intervenção do Exército nas ruas?

É triste o que está acontecendo. A mídia pode estar no Rio, mas não é só lá. Temos que alertar para todos os lugares, todos os estados, porque a violência está demais. Aqui é mais tranquilo onde a gente mora, procuramos um lugar mais calmo, mas tanto pro povo do Rio como para qualquer lugar do Brasil, nosso pedido é de paz.

Preocupa-se muito com seus pais e familiares?

Claro, é difícil. Eles têm quase 60 anos morando no mesmo lugar. Ter que mudar assim, cheios de netos, é complicado. Eles não vão querer sair dali. Mas graças a Deus eu consegui reformar a casa que a gente morava. A casa que não tinha nem quarto hoje tem três, tem uma sala legal. A gente aumentou, reformou e eles estão muito felizes. Não vão querer sair de lá.

Já viveu alguma situação em que foi vítima da violência no Rio?

Lá onde eu moro não é comunidade. Hoje em dia tem uns tentando fazer boca de fumo, mas graças a Deus não passei tanto pesadelo como outras comunidades passam.

Qual é sua relação com Pelé, além do apelido?

Eu joguei no time do Pelé em Santos, que se chamava Litoral. Foi até engraçado um dia que a gente estava numa reunião e ele chegou para cumprimentar todo mundo. Aí a rapaziada olhou pra mim, olhou pra ele, o negão deu um sorriso que todo mundo começou a rir na hora. Conheci Pelé, já vi ele umas duas vezes. Joguei lá por dois anos.

Você teve a mesma lesão de Neymar, no quinto metatarso (um osso no pé). O torcedor brasileiro pode ficar tranquilo e contar com ele na Copa do Mundo?

É, pra mim eles deram 40 dias, mas com 24, 25, eu já estava treinando normal. O lance foi sozinho, correndo, meu pé estalou. Aí eu segurei, foi mais ou menos aos 35 minutos. Quando cheguei no vestiário, o fisioterapeuta mexeu no meu pé e já falou que tinha sido o “quinto”. Eu estava naquela sede de mudar de vida. Foi pelo Fluminense, nas quartas de finais na Copa do Brasil contra o Grêmio. Tinha meus 18, 19 anos. Mesmo assim voltei pro jogo e, com o pé quebrado, joguei o segundo tempo todo, comemorei, pulei e depois operei. Era pra eu voltar só em 2016, mesmo assim ainda peguei os dois últimos jogos de 2015 do Brasileiro. A galera pode ficar tranquila, porque do jeito que Neymar se cuida ele vai voltar.

Como vê a relação entre a torcida e um jogador da base? No Fluminense houve desgaste com Scarpa, você sofreu um pouco no segundo semestre de 2017.

Eu não acho que o torcedor pega tanto no pé. Acho que ele tem o sentimento, e a gente tem que respeitar. É o amor pelo clube. No primeiro semestre do ano passado eu fui bem, até que tive a proposta do Genoa, não fui e eu até admiti que o rendimento caiu por ter mexido com minha cabeça. É complicado estar tão perto de realizar um sonho, que é jogar na Europa, na primeira divisão, e quando frustra mexe com você. Sobre Scarpa era normal. Era o camisa 10, o capitão, assim como Fred, que também era cobrado. Enquanto você estiver num time grande e não houver cobrança, tem algo errado. Se fez um jogo bom hoje, a torcida vai te aplaudir. Beleza. Se não fez, vai ser vaiado, criticado. Vai muito da mente do atleta.

Como foi jogar com Fred? Deu assistência para ele?

Dei, contra o Goiás em 2015. Peguei uma bola na intermediária e dei um cruzamento. Ele pegou de chapa e fez o gol. Fiquei muito feliz. Foi um passe que Ronaldinho (Gaúcho) me deu, eu dominei e já lancei no Fred.

Apesar da idade, você já tem certa experiência como profissional. Costuma dar dicas aos garotos do Bahia, como Júnior Brumado?

Foi boa essa pergunta. A gente estava viajando agora e sentamos juntos. E eu falei com Brumado: “Cara, não se empolga. O futebol muda a vida muito rápido”. Hoje você faz dois meses de alto nível, um cara do Japão, da China, da Europa te viu, você que ganhava R$ 10 mil passa a ganhar R$ 200 mil. Um doutor que trabalha cinco anos talvez tenha um salário que para ele não seja digno. É um estalo, acontece as coisas tanto para o bem, quanto para o mal. Eu converso com eles: Não se empolga. Fez um gol? Continua trabalhando. Deu assistência? Continua trabalhando. Humildade sempre. Tem que passar para eles o que um dia eu ouvi do Fred, do Marlon, do Scarpa.

Você é muito sorridente. É seu jeito de levar a vida?

Um dia me falaram: “Você só brinca, só ri”. Não é que eu não leve a vida a sério. É que a minha resposta é sempre a mesma: eu já chorei demais. Então eu acho que tenho que aproveitar esse momento e sorrir com a minha família, com a minha esposa, com a minha filha. Porque o sofrimento que eu passei lá, eu não quero passar mais. Tenho que aproveitar a vida, o que Deus está me proporcionando, o que o Bahia me proporciona, o que o Fluminense e Londrina me proporcionaram há um tempo atrás. São esses momentos que a gente tem que aproveitar no futebol.

E qual foi esse sofrimento que você passou?

(Choro) Desculpa. Tinha momento em casa que… é difícil. As pessoas veem muito o agora, quando você está conquistando as coisas. Mas para você chegar num nível assim tão alto… é por isso que eu dou muito valor a isso e vivo sorrindo. Você acorda de manhã e não tem um pão pra comer, a minha mãe tinha que fazer um bolinho de chuva com água para disfarçar. É um angu. É você morar com sete irmãos num quadrado e a chuva caindo e pingando em cima de você, sabe? São esses momentos difíceis que passei lá atrás, que hoje larguei minha mãe e meu pai lá para ir em busca de mais um objetivo, mais um sonho a conquistar. Olhar o agora é meio difícil, né cara? Ah, jogador de futebol, falam que tem dinheiro, tem isso, tem aquilo, mas vê o que passou. Vê o que cavou para chegar. Tem milhões lá querendo ser atleta e você chegar numa posição é difícil. Sofrer racismo, já sofri. Para mim foi a maior humilhação da minha vida. Foi num shopping, entrando, o segurança mandou eu sair. Isso lá em Santos: “Sai daqui. Você está aqui para pedir dinheiro?”. Só porque eu era um garoto escurinho e não tinha condições naquela época. Andava de chinelinho, bermudinha. Então aquilo ali, eu saí andando na rua, olhei pra Deus e falei: “Não vou ser mais atleta. Não quero mais buscar esse sonho”… (Choro). Mas meu irmão me deu força. São histórias assim que, mesmo sendo sofrido, dão força para continuar.

A cobrança de lateral longo, direto na área, é mais força ou jeito?

É mais a precisão. Tem treinador, como Abel (Braga) no ano passado, ele gostava que dava a bola mais balão. Guto (Ferreira) gosta mais rasante, no primeiro pau para desviar. Isso é treinado. Não é chegar lá no jogo porque está apertado e jogar na área. A gente treina isso bastante. Cruzamento também. Eu até estou chegando um pouquinho mais tarde em casa, tirando 15, 20 minutos para treinar cruzamento, lateral. Eu já fazia isso (lateral longo) desde a base. Lá no Londrina já saiu gol assim, no Fluminense acho que não.

Você chegou a ser comparado com Moisés, lateral que passou no Bahia em 2016, por conta do biótipo. As características são um pouco diferentes, mas comparando as situações, ele disputava posição com João Paulo Gomes, mais experiente, e hoje você disputa com Mena. É uma referência?

Foi assim com Moisés, foi assim com Juninho Capixaba. Já procurei saber. É teu trabalho, então você tem que ver o caminho. Não o que seja mais fácil, mas os bons exemplos. Moisés, cara, quando eu joguei aqui pelo Londrina (contra o Bahia, em 2016), acho que ele estava no banco de reservas, mas depois eu olhando pela televisão a torcida já estava apoiando ele. Juninho já não acompanhei tanto, pela maratona de jogos. Sei que o Mena é experiente, já está beirando os 30 anos, eu tenho 22 hoje, então quando eu estava começando ele já estava no profissional, jogando Copa do Mundo (risos). Então o que eu tenho que fazer é manter minha tranquilidade.

As fases finais do Baiano e Copa do Nordeste estão chegando. Em que nível você acha que o Bahia está?

Eu não tiro a razão do torcedor. Temos que ter a consciência de ter que melhorar um pouco mais dentro de campo. Se o resultado está vindo, muito bom pra gente. Às vezes o momento não está tão legal e trabalhar em cima de bons resultados te dá uma força a mais para buscar chegar num nível legal. Mas temos que ter total consciência, temos que melhorar sim. Acho que é nesse momento que tem que corresponder o torcedor. Chegar numa semifinal do Baiano, no momento decisivo da Copa do Nordeste, oitavas de Copa do Brasil, Sul-Americana, às vezes tem muitos clubes que chegam ganhando, ganhando e caem. Então acho que é melhor ir tombando agora e fazendo um grupo bem forte, que na hora da decisão a gente vai estar bem preparado.

Quais são seus ídolos?

Sempre fui muito fã do Ronaldinho Gaúcho. Antes, mais novo, jogava de meia e depois o professor me botou pra lateral, como se fosse um teste. Eu fui indo bem, fui convocado pra seleção sub-17 e depois dali falei: “Vou ficar aqui mesmo, está dando certo”. E da minha posição é Marcelo. Muito campeão, muito vencedor. Lá no Fluminense ouvia que o avô dele levava ele de fusca, ouvia algumas histórias. Me espelho nele, no Alaba do Bayern. Até vejo Alaba com o estilo de jogo parecido com o meu. Marcelo tem algo que não tem jeito, quem não for fã desse cara, brincadeira. Joga demais.

 

Comentários
Carregando...