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Quando o futebol é apenas um detalhe

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Para a geração de Neymar, jogar bola é um detalhe

Dinheiro, falta de profissionalismo, estrelismo e diversos outros interesses parecem desviar a atenção dos jogadores da atividade que os projetou

Neymar

As várias faces de Neymar: o maior craque brasileiro é notícia pelo que veste, o que vende, com quem sai – e também por fazer gols – (VEJA.com/VEJA)

Os dois fracassos consecutivos da seleção brasileira, na Copa do Mundo em casa e na Copa América do Chile, foram um forte choque de realidade para o futebol nacional e mostram que ocorreu uma perda de identidade da seleção, um grupo formado por atletas estabelecidos na Europa, no qual predomina a falta de genialidade. Hoje, a seleção tem a defesa como setor mais forte – mesmo depois do 7 a 1. O único sobrevivente com o DNA dos craques nacionais, Neymar, não consegue, claro, evitar os fiascos recentes, graças a dois males do futebol moderno: truculência dos defensores e o próprio estrelismo. Chateado, o atacante do Barcelona deixou a concentração para torrar parte de sua fortuna com os amigos que banca na Europa, chamados de "parças", enquanto a Justiça espanhola investiga a procedência de uma parte dela. Não é justo, porém, condenar apenas Neymar pelos últimos vergonhosos resultados, pois ele é mais uma vítima de sua geração, formada por jogadores que vivem cada vez mais rodeados de empresários, patrocinadores, investidores, e sanguessugas profissionais, e entram numa roda-vida em que o ofício de jogar bola é apenas uma das inúmeras atividades de um atleta de ponta.

Essa geração é também a do chileno Arturo Vidal, do uruguaio Luis Suárez e do italiano Mário Balotelli, entre outros jogadores mimados com incontestável talento e personalidade explosiva, geralmente causada pela frágil formação cultural e foco torto na profissão. Estes craques são o menor dos problemas, pois, apesar das pisadas na bola, conquistam títulos e prêmios individuais e aumentam os zeros em suas contas bancárias – e dos clubes também. O problema são os milhares de atletas que sonham em ser Neymar, mas não nasceram com a mesma intimidade com a bola. A eles resta copiar o ídolo no corte de cabelo, na cor da chuteira, nas tatuagens, na marra, nas expressões de boleiro e no sonho de jogar fora do Brasil – ainda que em países como China, Emirados Árabes ou Ucrânia. Um exemplo da seleção de Dunga: Roberto Firmino, jovem alagoano que se apresentou ao mundo jogando pelo modesto Hoffenheim, da Alemanha, sofreu várias mudanças desde que chegou à seleção. Encheu o corpo de brincos e tatuagens, turbinou o penteado, fechou contrato milionário com uma marca de material esportivo e postou, acidentalmente, uma foto de sua mulher nua nas redes sociais. Ainda durante a Copa américa, assinou com um dos maiores clubes da Europa, o Liverpool, por mais de 140 milhões de reais, a segunda maior contratação da história do clube. Sua trajetória lembra a de Dante, Hulk, Bernard, Douglas Costa, e outros que contribuíram para tornar a seleção cada vez mais comum nos últimos anos. São bons jogadores, mas não craques. E, mal assessorados, parece que mal se preocupam com o rendimento nos gramados.

Este quadro afeta, especialmente, jogadores de países sul-americanos e africanos. Ao analisar o perfil dos jogadores de países europeus, percebe-se maior grau de maturidade dos atletas. Quase todos falam mais de um idioma e raramente se envolvem em confusão. Além de melhor formação, atletas como Iker Casillas e Phillip Lahm, os últimos capitães a erguer a Copa do Mundo, vivem em seu continente, jogam por clubes pelos quais se identificam, têm a família e os amigos por perto, sem sofrer nenhum grave choque cultural. Mas, além disso, raramente viram notícia por seus cortes de cabelo ou mau comportamento. Na Copa, foi destaque a liberdade que os atletas holandeses tinham no Rio de Janeiro. Robben e seus companheiros passeavam pela cidade com as namoradas, tomavam cerveja nos bares, e voltavam para a concentração tranquilamente para treinar no dia seguinte. Será que este tipo de abertura funcionaria na seleção brasileira ou argentina? Outros aspectos também ajudam a entender a pasteurização do futebol brasileiro – treinadores e dirigentes malformados, assessores pendurados em pequenas mordomias e com momentos de fama terceirizada, além de uma boa parcela de culpa da imprensa, acentuadamene com viés de entretenimento, desde que valorize a grade de programação. Gol da Alemanha!

Romário atuando pelo Barcelona em 1994

Romário, melhor do mundo pelo Barcelona em 1994. Antes, o Baixinho fez um estágio de luxo no PSV(Bob Thomas/Getty Images)

A Receita perdida – Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho foram campeões do mundo, Bola de Ouro da Fifa e tiveram trajetória bastante semelhante: primeiro, brilharam em um grande clube brasileiro e chegaram à seleção. Em seguida, foram para a Europa, mas antes de se consagrarem, fizeram um vestibular em clubes como PSV, Paris Saint-Germain e Deportivo La Coruña. Só depois de um ou dois anos de adaptação ao futebol e à vida na Europa se consolidaram no Barcelona, o sonho de cinco entre dez garotos (os outros cinco sonham com o Real Madrid). Último brasileiro a receber o título de melhor do mundo, Kaká foi uma exceção: foi direto para o Milan, aos 21 anos, e imediatamente se tornou uma estrela. Mas já era campeão do mundo pela seleção quando ainda jogava no São Paulo. Sua história de vida e formação, bem diferentes da média do jogador brasileiro, também ajudam a entender a sua maturidade precoce.

Os craques da década passada também foram muito assediados, eram garotos-propaganda de grandes marcas e ganharam fortunas também fora dos gramados – apesar de Rivaldo, muito tímido, não ter sido exatamente um bom produto de marketing. Suas mulheres, penteados e cor das chuteiras também davam o que falar. Mas não existiam as redes sociais nem tantas mídias e compromissos e os jogadores eram menos suscetíveis a empresários, assessores e a um celular na mão de alguém por perto. O acesso às confusões em que Romário e Ronaldo Fenômeno se metiam era bem mais restrito. Respondiam dentro de campo com talento e personalidade.

Futebol bizarro

O esporte anda meio sem graça, ninguém deixa de comentar que o nível não é dos melhores nem há mais tantos craques ou times sensacionais. Por isso algumas opiniões e observações beiram o bizarro e alguns assuntos se tornam mais importantes do que a disputa de uma partida, como bate-bocas via internet..

– Ronaldo, Ronaldinho e Neymar já declararam diversas vezes que detestam assistir partidas de futebol na TV – o Fenômeno, entre outros trabalhos, é pago para analisar partidas como comentarista da Rede Globo

– Quando ainda era vice-presidente da CBF, Marco Polo Del Nero foi flagrado perguntando ao coordenador Gilmar Rinaldi quem eram alguns dos jogadores convocados por Dunga

– Na comemoração do título inglês do Chelsea, o espanhol Cesc Fàbregas brincou com a pronúncia do brasileiro Oscar: "Está há três anos aqui e ainda não aprendeu a falar inglês?!"

– Recentemente, o lateral Rafinha, do Bayern de Munique, teve uma conversa com amigos vazada na intenet, Nela, o jogador brasileiro criticou seus compatriotas do Shakhtar Donetsk, a quem se referiu como "molecada nojenta", por não respeitar os adversários e pensarem demais em dinheiro. O Bayern eliminou o Shakhtar com uma goleada por 7 a 0

Os concorrentes do futebol

Euros, dólares e petrodólares

Amadorismo: os familiares e 'parças' em volta

Euros, dólares e petrodólares – (Foto: Montagem/VEJA)

Nas últimas duas décadas, bilionários das mais variadas origens decidiram investir suas fortunas no esporte mais popular do planeta. Alguns obtiveram excelentes resultados, como o russo do Chelsea, ou os árabes de Manchester City e Paris Saint-Germain. Mas há também um histórico de fracasssos, como o da equipe do Anzhi, do Daguestão (uma região separatista da Rússia), que contratou astros como Roberto Carlos e Samuel Eto’o e uma série de talentosos jogadores sul-americanos, mas a fonte secou em menos de dois anos e foi rebaixado no Campeonato Russo.

Cada vez mais, jogadores com grande potencial optam pelo retorno financeiro imediato e abrem mão do êxito esportivo (como se os dois não pudessem coexistir). Emirados Árabes, China e Ucrânia, países com ligas fraquíssimas, são os destinos da moda, inclusive de jogadores de seleção brasileira, como Diego Tardelli, o camisa 9 de Dunga: de 2011 para cá, passou por Anzhi, Al-Gharafa e Shandong Luneng, foi campeão da Libertadores com o Atlético-MG, e se tornou ídolo. Tardelli poderia ter construído toda a sua carreira no Brasil ou em equipes de respeito na Europa, mas preferiu apenas ser um jogador mais rico – e, ajudado pelo cenário atual, conseguiu chegar à seleção brasileira mesmo assim.

Amadorismo: os familiares e 'parças' em volta – (Foto: Instagram/Reprodução)

Alguns atletas se equivocam ao misturar as relações pessoais com as profissionais. Não haveria problema algum em trabalhar com o pai, o irmão ou o amigo de infância, contanto que eles tivessem a formação e a competência necessárias para isso. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, vem desgastando sua imagem a cada ano, entre outros motivos, graças à conduta contestável de seu irmão e empresário, Roberto de Assis, famoso por realizar “leilões” do craque-irmão. Ronaldinho se desligou do Querétaro há pouco tempo e segue em atividade, apesar de levar uma vida cada vez menos condizente com a de um atleta. Outro exemplo, Adriano, que poderia ter sido a referência da seleção brasileiras nas últimas duas Copas do Mundo, se cercou de más influências (e se afastou das boas) e sucumbiu aos problemas pessoais, tornando-se um exemplo melancólico de talento desperdiçado.

Compromissos

Redes sociais

Compromissos – (Foto: VEJA.com/Reprodução)

Partidas de futebol duram apenas 90 minutos, mas a cartilha do atleta ideal exigiria muitas horas a mais de dedicação e foco na profissão. O problema é que, na condição de celebridades, muitos craques suam a camisa não para marcar gols, mas conseguir arrumar espaços em suas agendas. Entre uma viagem de jatinho e outra, eles são obrigados a conceder entrevistas, gravar comerciais e comparecer a eventos, em momentos em que poderiam estar simplesmente descansando as pernas e a cabeça. Figuras do calibre de Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo, que apenas com seus salários poderiam aposentar várias gerações de familiares, não se cansam de acumular patrocinadores e compromissos, ignorando o senso do ridículo. O vaidoso português, por exemplo, é um ícone anticaspa no mundo, enquanto Neymar já se vestiu de vaca para faturar um pouquinho mais. Neymar foi até acusado de levantar a camisa para exibir sua nova linha de cuecas coloridas. O fato é que os craques têm muitos outros objetivos além de superar as defesas adversárias.

Redes sociais – (Foto: Reprodução/Instagram)

O mundo virtual possibilitou uma nova forma de interação entre os astros de futebol e seus fãs (ou até mesmo seus haters, como são chamados seus detratores), mas também se tornaram uma armadilha perigosa por vários motivos. Num mundo de telas e possibilidades infinitas, as celebridades correm o risco de ter sua intimidade registrada e, consequentemente, violada e exposta nas redes. Cristiano Ronaldo, que se limita a postar mensagens e fotos quase institucionais em suas redes sociais, já foi vítima da indiscrição: em janeiro, um cantor colombiano exibiu imagens da animada festa de 30 anos do craque português, que aparecia cantando e dançando, com bebidas na mão. Tudo aconteceu horas depois de o Real Madrid ser goleado pelo rival Atlético. Cristiano – tantas vezes apontado como exemplo de profissionalismo – foi criticado por torcedores e dirigentes e, coincidentemente ou não, a equipe espanhola afundou em uma crise. Mas há quem se enrole sozinho: muitos atletas, renomados ou não, já entraram em confusões por suas postagens, em bate-boca com torcedores e até vazamentos de conteúdo sexual.

A euforia da mídia

O atleta em fatias

A euforia da mídia – (Foto: Reprodução/Rede Globo/VEJA)

Na Argentina, o último talento esportivo será o "novo Maradona" ou o "novo Messi." No Brasil, será comparado a Pelé ou Neymar, ou a Guga e Senna. Muita desta euforia é causada pela ânsia em revelar novos ídolos, que surgem cada vez mais raramente. Atletas viram heróis e vilões em desumana velocidade. Antes da Copa do Mundo de 2014, por exemplo, Thiago Silva, um dos melhores zagueiros do planeta, parecia o homem ideal para erguer a sexta taça do Brasil, em casa. Decretado o fiasco do Mundial, Thiago foi execrado por imprensa e torcida, com a imagem de jogador "chorão" e péssimo líder. Essa euforia bipolar muitas vezes atrapalha o momento dos jogadores.

O atleta em fatias – (Foto: Europa Press/Getty Images/VEJA)

Um jogador de futebol de alto nível normalmente é "fatiado": ele pode ter seus direitos econômicos divididos entre empresas, clubes, agentes e investidores individuais. O choque de interesses é inevitável e pode ocorrer problemas até mesmo em negócios fadados ao sucesso. Neymar que o diga – o único craque do futebol brasileiro e seu pai terão de responder na Justiça espanhola a acusações de irregularidades na negociação com o Barcelona, em que o pai do jogador teria recebido dinheiro "por fora". O Santos e um grupo de investidores, que compartilhavam “fatias” de Neymar, reclamam quantias milionárias que deixaram de receber. O dia de fúria de Neymar na Copa América, contra a Colômbia, que culminou com sua expulsão após mão na bola, chute no adversário e uma cabeçada, além de ofensas ao árbitro, foi creditado aos problemas judiciais que ele enfrenta na Espanha.

O choque cultural

O resultado acima de tudo

O choque cultural – (Foto: Mike Kireev/Epsilon/Getty Images)

Nos anos 90, o ex-atacante Viola disse que não se adaptou ao Valencia, da Espanha, por ter estranhado aspectos da cultura local, sobretudo, a culinária. imagine o quanto é difícil para um atleta, geralmente com pouca experiência internacional, viver em países como China, Rússia, Ucrânia ou Emirados Árabes, só para ficar nos destinos da moda. Além de jogarem em ligas mais fracas, o que naturalmente os prejudicaria profissionalmente, este atletas e suas famílias muitas vezes sofrem para se estabelecer em locais tão distantes e com cultura completamente diferente. Muitos retornam ao Brasil antes do fim do contrato, o que inflaciona o mercado.

O resultado acima de tudo – (Foto: Sergio Moraes/Reuters)

Logo após o massacre alemão no Mineirão, virou consenso entre os fãs da seleção que o futebol brasileiro precisaria passar por uma reformulação completa, baseada em ideias novas, trabalho eficiente nas categorias de base e valorização do talento. O problema é que, as pessoas que efetivamente gerem o futebol no país, ainda não parecem preocupados com isso. A escolha de Dunga como técnico é uma prova disso: após um breve e fracassado trabalho no Inter e vários meses de inatividade, o ex-jogador foi o eleito para dar nova vida à seleção. O que se viu, no entanto, foi o mesmo que fez em sua primeira passagem, entre 2006 e 2010: futebol burocrático, convocações contestadas e culto ao resultado. O Brasil deixou a Copa América sem ter tido nenhuma atuação convincente, mas o presidente da CBF Marco Polo Del Nero já correu para relembrar os bons números de Dunga (apenas uma derrota em 14 jogos) e garantir sua permanência até 2018.

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