Cristóvão reencontra com a infância

Em Amaralina, Cristóvão Borges se encontra com histórias da infância

Hoje treinador do Bahia, Cristóvão volta ao bairro onde cresceu, reencontra velhos amigos e relembra histórias vividas nas ruas da capital baiana


Nordeste de Amaralina, Salvador, meados de 1970. Na região conhecida como Ubaranas, três garotos esperam ansiosos para começar o "golzinho" na Rua do Beco. Na falta de uma bola real, o improviso com uma meia amarrada em formato quase redondo dá o tom da diversão que está prestes a começar. Franzino e sem camisa, mais um menino sai de casa a toda velocidade para completar o ‘baba’. Irmãos, Lota e Nengo começam a discussão para formar os times. Sabem que do outro lado está um amigo com habilidade acima da média e nem sequer cogitam tê-lo como adversário. Mais novo do grupo, Afonso acaba eleito para ser o parceiro de Cristóvão, que aos 11 anos coleciona gols marcados na frente de casa, sem, contudo, imaginar que um dia conquistará a Bahia jogando futebol de verdade.

Cristóvão Borges circula pelo bairro do Nordeste de Amaralina, em Salvador

Os anos se passaram tão apressados quanto o menino que saía de casa para pegar o 'golzinho'. O pequeno Cristóvão cresceu, jogou futebol de verdade em grandes times, conquistou títulos, fama e também ganhou como companhia o sobrenome Borges. Foram vários anos rodando o país, impedido de visitar as ruas que se acostumou a trilhar na infância. Tempo demasiado longo, mas insuficiente para apagar da memória um Nordeste de Amaralina que permanece vivo em lembranças, perto da praia, cheio de verde e de crianças prontas para correr de um lado para o outro atrás de uma bola.

No início desta semana, Cristóvão Borges voltou à região onde nasceu e cresceu pela primeira vez desde que assumiu o comando do Bahia, no final de maio. Ao passar pelas ruas do bairro, que hoje abriga quase 200 mil pessoas, o treinador entrou no túnel do tempo e começou a apontar referências que costumavam ser de grande importância em um passado não muito distante. O bar do Pintado, o armazém da Dona Gerolina, a casa da Dona Rosa, tudo está no roteiro para a Rua do Beco, que hoje se chama Beco da Castália. No caminho, uma senhora olha meio desconfiada, como se reconhecesse no técnico de 54 anos um menino que ela viu brincar por anos a fio.

– É o Cristóvão! Vi ele crescer, jogar bola com meus filhos. Ele era uma boa criança, sempre tranquila. Lembro bem. Saiu daqui adolescente, para jogar futebol. Hoje eu vejo ele na televisão e penso: poxa, meu vizinho, que orgulho ver onde ele chegou – conta Vicentina Vilaronga, que aos 72 anos tentava controlar o neto, ansioso por um autógrafo do treinador.

Surpreso, o técnico encara o agora Beco da Castália como se defrontasse o próprio passado. Calado por alguns segundos, ele relembra os quase 20 anos que viveu no local para só então resumir tudo com um misto de surpresa e incredulidade.

– Está tudo muito diferente. O beco era mais largo. Acho que minha antiga cada nem deve existir mais. Foi aqui que eu cresci. Aqui que eu brincava com meus amigos. Está muito mudado – comentou como se estivesse pensando alto.

Dia de reencontros

Ficar frente a frente com o local onde nasceu não foi a única lembrança que Cristóvão Borges encontrou ao voltar no Nordeste de Amaralina. Enquanto o técnico tricolor admirava aturdido o Beco da Castália, velhos amigos de 'baba' se reuniam do outro lado da rua para tentar surpreender o filho pródigo que voltava ao bairro. Segundos depois, emoção e muitas histórias que o tempo já tinha consumido vieram à tona em meio a abraços e relatos de sincera surpresa.

A Rua do Beco, onde Cristóvão Borges viveu, virou o Beco da Castália

– Puxa vida. Olha só quem está aqui. É o Neinho. Faz muito tempo que não o vejo – disse Cristóvão Borges, enquanto reencontrava os amigos de infância.

– Como é que você está, meu amigo? Não mudou nada! – respondeu Paulo Sérgio Lopes, o 'Neinho', que também foi jogador profissional, com passagens por Bahia, Ypiranga e Galícia, mas que hoje trabalha com aulas de natação ministradas em um condomínio de Salvador.

O encontro revive amizades que o longo período sem colocar a conversa em dia já tinha se encarregado de transformar em páginas de história. Neinho conta que, quando adolescente, fazia de tudo para ficar no mesmo time que Cristóvão, tudo para não ter que enfrentar a categoria do amigo.

Cristóvão e Neinho, dupla que atormentava adversários no Nordeste

 

– Craque tem que jogar do lado de craque. Por isso eu sempre jogava no mesmo time do Cristóvão. Não tinha como jogar em outro time. Era uma parceria. E ele jogava muito. Se ficasse no time adversário, era problema – diz Neinho com um sorriso no rosto.

Já o agente de saúde Edmilson da Silva, mais conhecido como Mica, abandonou momentaneamente a paixão pelo Galícia para virar torcedor do Bahia e apoiar o amigo Cristóvão na empreitada como técnico em Salvador.

– Pelo amigo, vale até trocar de time. Nem todo mundo tem a humildade e o carisma que ele tem. Por isso, enquanto ele estiver no Bahia, deixo de ser galiciano para torcer pelo Tricolor. É um sacrifício feito pelo Cristóvão – afirma Mica, para logo em seguida revelar que Cristóvão também aprontava das suas quando criança.

– Às vezes acontecia de a bola pegar na janela de uma vizinha e todo mundo sair correndo. Quando a gente era criança, bastava um adulto bater o pé que a gente corria. O curioso é que ele sempre fazia isso sorrindo. Acho que é uma característica dele até hoje, fazer as coisas com felicidade – comentou.

Entre a paixão renovada e a rivalidade esquecida

O carisma de Cristóvão e os laços mantidos com os amigos de infância são capazes de renovar paixões e apagar rivalidades. O funcionário público Raimundo da Silva, de 51 anos, é um dos amigos que reservam vários 'causos' do treinador. A visão do senhor de cabelos brancos e camisa do Bahia, no entanto, não está voltada para o passado. Mas, sim, para o coração, que ostenta as cores azul, vermelho e branco e passou a bater mais forte desde que o Tricolor contratou o antigo morador de Ubaranas como treinador.

Raimundo da Silva teve a paixão renovada pelo Bahia com a chegada de Cristóvão

– Eu estava meio desgostoso de ver o Bahia como estava. Perdendo, sendo goleado. Não era o Bahia que eu me acostumei a ver. Mesmo assim, assistia aos jogos, com um peso no coração. Agora, minha esperança no time renasceu. O Cristóvão nasceu com o dom de jogar e também com o dom de treinar. É outra coisa ver o time. Meu amigo me devolveu a alegria de torcer pelo meu time. Esse é um grande presente – declarou.

Já para o taxista Acácio Vidal, de 56 anos, o sentimento é inverso. Por Cristóvão, ele promete esquecer o coração rubro-negro para torcer, não pelo Bahia, mas sim pelo amigo.

– A gente troca de mulher, troca de partido, mas não troca de time. Não posso dizer que vou deixar de ser Vitória para torcer pelo Bahia por ele estar lá. Mas vou apoiá-lo. Por isso, quero que os dois Ba-Vis do Brasileirão terminem em empate. Assim, meu coração fica feliz por ser rubro-negro e por ver a felicidade de um amigo. Serei Cristóvão Futebol Clube na Série A – assegurou.

Coqueiral, praia de Amaralina e o Campo da Cascavel

Cristóvão Borges é saudado na praia de Amaralina, onde jogava futebol

Nem todas as emoções foram boas na visita de Cristóvão ao Nordeste de Amaralina. Entre os encontros com os amigos e as lembranças de brincadeiras infantis pela Rua do Beco, surge a nostalgia e mágoa pela destruição do Coqueiral, área verde que ficava localizada na parte de cima da Ubaranas e servia como palco para partidas de futebol e todas as brincadeiras das crianças do bairro.

– Chega a ser assustador. Quando vivi aqui, não era assim. O Coqueiral era uma região linda, que ficava no alto, cheia de coqueiros e de onde dava para ver a praia. Era um grande jardim, lugar onde a gente brincava, jogava bola. Agora virou um condomínio. Fiquei muito triste – disse o técnico.

Outro campo onde o treinador tricolor costumava jogar bola é o Cascavel, que também não existe mais. O vasto espaço vazio deu lugar a um complexo de escolas conhecido como 'Beco da Cultura', localizado perto do final de linha do Nordeste de Amaralina. Questionado sobre o nome do antigo palco de grandes partidas, Cristóvão justifica: a área era habitat de várias cobras, e disputar uma partida de futebol na região era uma emoção rodeada de perigos.

– Ganhou o nome de Cascavel por ter muitas cobras. Quando eu era pequeno, cheguei a ver cobra perto do campo. Era uma região que tinha muita árvore. Quando a bola ia parar no mato, era uma briga pra ver quem ia pegar. Todo mundo com medo – lembra Cristóvão.

O único 'campo' utilizado por Cristóvão na juventude que persiste inalterado é a praia de Amaralina. O técnico conta que costumava andar por alguns minutos de casa até o local para jogar disputados duelos. Foi na areia que aprimorou os fundamentos.

Cristóvão Borges fala sobre quando jogava fuebol na praia de Amaralina

– Na minha adolescência, eu jogava aqui, na praia de Amaralina, perto do Largo das Baianas. Com o time do bairro, jogávamos no interior. Jogávamos no interior e em vários campos que existiam pelos bairros, mas que hoje não existem mais. A especulação imobiliária levou tudo – lamenta.

Todos os caminhos levam ao Bahia

Cristóvão atravessou vários campos e modalidades de futebol até chegar às divisões de base do Bahia, quando era adolescente. Antes de chegar à Fazendinha, antigo centro de treinamento tricolor, ele passou pelo futsal do Clube Português, onde despertou a atenção dos companheiros de time e acabou indicado ao Esquadrão de Aço.

Cristóvão Borges foi recebido pelos amigos perto do Beco da Castália

– Foram os amigos que jogavam futsal comigo que me levaram para o Bahia. Eles diziam que eu jogava bem, que podia virar profissional, o que acabou acontecendo – lembra o treinador.

Antes de virar profissional, o treinador costumava assistir aos jogos do Tricolor na Fonte Nova, tudo com a ajuda dos amigos, que contribuíram para que o sonho de ser atleta profissional se mantivesse inalterado.

– Meus amigos é que me levavam para a Fonte Nova. Eu não tinha dinheiro. Era de uma família que tinha dificuldades financeiras. Mas meus amigos gostavam de mim e me viam como um jogador promissor – contou Cristóvão.

No Bahia, o agora treinador achou amigos que também moravam no Nordeste de Amaralina, mas que nunca havia encontrado nas andanças pelo bairro.

– O Roberto Passos e o Ronaldo, goleiro, eram da mesma época que eu e moravam no Nordeste. Nunca tinha encontrado com eles no bairro. Foi depois que viramos amigos no clube que passamos a conviver juntos também pelas ruas daqui. O Ronaldo foi com quem joguei mais vezes, tanto no time profissional quanto na Seleção de juniores – afirma o técnico.

Foi aos 18 anos que Cristóvão conseguiu a primeira chance no elenco profissional do Bahia, de onde só saiu para conhecer o país, atuando por outras onze equipes. O responsável pela promoção do jovem volante foi o ex-zagueiro Sapatão, que enxergou em Cristóvão potencial para ser titular do Tricolor.

– O Sapatão me viu treinar no time júnior e, uma vez, o técnico do profissional precisou de um jogador de meio de campo e ele falou que podia me chamar. Entrei no time e só saí para ir para o Fluminense, em 1979 – pontuou.

Cristóvão Borges se reúne com amigos no Nordeste de Amaralina

De riso fácil, Cristóvão vai falando e se perde em meio às memórias de quando ainda era menino, descalço e sem camisa, correndo pelas ruas do Nordeste de Amaralina. As histórias tomam ritmo frenético e fazem parecer que os 34 anos em que esteve longe do bairro não passaram de alguns dias, ou talvez horas. No fundo, contudo, não se pode dizer que Cristóvão nunca deixou o Nordeste de Amaralina. Mais certo seria afirmar que o Nordeste de Amaralina nunca deixou Cristóvão.

Fonte e Fotos: Thiago Pereira – GLOBOESPORTE.COM