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Kleina destaca defesa, pede equilíbrio ao Bahia e avalia futebol brasileiro

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Kleina destaca defesa, pede equilíbrio ao Bahia e avalia futebol brasileiro

Treinador lamenta rumo tomado pelo futebol do Brasil e destaca falta de meias. Kleina ainda comenta injúrias raciais sofridas pelo goleiro Aranha diante do Grêmio

Kleina quer Bahia equilibrado diante do Grêmio

O Bahia tem, neste domingo, um compromisso complicado pelo Campeonato Brasileiro. Depois de bater o Internacional pela Sul-Americana, a equipe baiana enfrenta o Grêmio, 7º colocado da Série A, na Arena do Grêmio. Apesar da 18ª posição da tabela, a fase do Tricolor baiano não é tão ruim: o time está invicto há sete jogos, com quatro empates e três vitórias. Neste domingo, a ideia é tentar dar sequência aos triunfos para sair da zona de rebaixamento.

Para a complicada missão, no entanto, ainda há alguns pontos a serem ajustados no Bahia. O técnico Gilson Kleina afirma que a equipe está evoluindo e se diz satisfeito com o rendimento da defesa – e destaca números para isso. Ainda assim, ele não se esquece de salientar que há aspectos que precisam ser melhorados.  

– Acho que é um jogo de cada vez. Cada jogo tem sua estratégia, suas particularidades. A equipe foi muito competente contra o Inter. A equipe vem numa evolução, mesmo com os empates. Nós tivemos algumas situações em que crescemos, estamos carentes em outras situações, que estamos trabalhando. Mas o principal é a mentalidade. Se a gente entra com a condição de também lutar pela vitória, é um caminho que tem que ser enaltecido e avaliado, como foi no jogo de quarta-feira. Espero que isso volte a acontecer no Brasileiro. São sete jogos para dois gols que tomamos. Evolução da equipe coletivamente na parte defensiva. Por isso que falei de algumas carências. Nós temos que continuar mantendo esses números, essa consistência de defesa. Mas também começar a arriscar, chegar mais no campo adversário – avaliou.   

– O Grêmio é uma equipe que verticaliza, que tem jogadores agudos… A gente vai ter que neutralizar. A equipe do Bahia tem que manter essa atitude, para que a gente possa retomar as vitórias dentro do Brasileirão. A gente sabe que a gente precisa muito da vitória para que a gente possa fazer outro tipo de campeonato. E para a gente encaixar uma sequência de vitórias – disse o treinador.  

Ciente da carência do meio para frente, Kleina avalia que esta não é uma deficiência exclusiva do Bahia. O treinador avalia o cenário do futebol nacional e lamenta o que chama de perda da essência brasileira no esporte.  

Ganso é um dos meias citados por Kleina

– Nós temos que resgatar a essência do futebol brasileiro. Nós sempre trabalhamos com dois meias. Logo que comecei a trabalhar no futebol, existia o meia-direita e o meia-esquerda. Não sobrecarregava o campo, dois homens de armação. Um às vezes até virava ponta de lança. A formação que vem do jogador da base hoje é aquele jogador de muita velocidade e de transição. Está acabando aquele jogador que faz a equipe pensar, que possa cadenciar, articular e organizar melhor as jogadas. Dá para dizer que hoje nós temos dois jogadores… Eu vejo o ganso e trabalhei diretamente com o Valdívia. Eles criam a jogada, dá tempo de o lateral passar, de enfiar uma bola, de infiltração para os atacantes. Hoje você trabalha muito transição – disse.  

Kleina ainda afirmou que esta nova tendência no Brasil tem origem além do Atlântico. O treinador analisa a origem da mudança e pede que o “verdadeiro” futebol brasileiro seja retomado.  

– Na minha ótica, nós importamos essa duas linhas de quatro, de 4-2-3-1. Na década de 90, tive a oportunidade de jogar lá fora, a Holanda jogando com três atacantes, Alemanha com duas linhas de quatro… A essência do futebol brasileiro sempre foi dois armadores, dois homens de ataque, um pouco de movimentação, a gente sempre exigiu muito dos laterais, de marcar e jogar. A gente sempre foi crítico. A gente não aceita o lateral só marcar. Tanto que as equipes de ponta da Europa sempre vêm contratar os laterais aqui, porque sabem que marcam e jogam e têm qualidade para isso. Acho que a gente precisa resgatar essa essência lá embaixo de novo. Está muito carente. O futebol hoje ficou rápido. A preparação física tem uma conotação muito forte. Mas nós precisamos entender que o futebol brasileiro sempre foi bola no chão, sempre foi de craques altamente inteligentes, que acabou. Hoje optamos, faz uns 15 anos, por força e velocidade e deixamos a técnica de lado. Acho que a gente precisa rever. Sou defensor disso. Claro que a gente tenta colocar, jogar. Estou vendo algumas equipes tentando retomar isso, tentando colocar Kaká e Ganso… A gente vê o próprio Inter com D’Alessandro e Valdivia, o Cruzeiro com Éverton Ribeiro e Goulart. Precisa resgatar isso aí para o futebol brasileiro ter mais vida e mais alegria – diz.  

Gilson Kleina e Charles Fabian durante coletivo do Bahia no Fazendão (Foto: Divulgação/E.C. Bahia)

Gilson Kleina e Charles Fabian durante coletivo do Bahia no Fazendão

O treinador ainda comentou as injúrias raciais sofridas pelo goleiro Aranha. Confira abaixo os outros trechos da entrevista coletiva do treinador nesta sexta-feira:  

Trabalho para achar um esquema dentro das características do grupo

– Dentro das características que temos no grupo. É o que estamos conversando diariamente, trabalhando, procurando mecanismos nos treinamentos, que nós possamos ter um pouco mais de posse de bola no campo adversário. Aconteceu isso já um pouco com o Inter, exigindo essa aproximação do toque de bola. Porque nossa equipe tem característica de transição rápida, mas não tem característica de cadenciar o jogo. Independente de quem for entrar, a gente tem que manter uma situação. Enquanto nós entendemos a nossa limitação, que a gente tem que jogar dessa maneira, o Bahia vai surpreender e fazer um campeonato mais tranquilo. Nós não podemos é fugir das características que nós temos. Mas nós podemos melhorar, como melhoramos na quarta-feira, ter um pouco mais de posse de bola, controlar o jogo. Outra situação é, quando você dá oportunidade a alguns jogadores que não vêm atuando, você começa a analisar a força do grupo. É isso que a gente precisa enaltecer. Cada jogo é um jogo. Mas se a gente puder manter essa regularidade, o nível mais alto dos outros jogos, aí você começa a ter um elenco em que se pode ter uma reposição. Sempre estou falando ao nosso torcedor que a gente quer melhorar. Mas nós temos uma carência de característica de meio-campo dentro desse planejamento que foi montado. A gente tem jogadores que transitam muito bem, que conduzem a bola em velocidade. Mas para ter aquela articulação de jogada, praticamente sobrecarrega só o Emanuel. Então a gente está trabalhando alguma outra forma para facilitar para nós dentro de campo.  

O que o Bahia precisa ter no domingo

– Equilíbrio. A gente sabe que domingo o Grêmio vem forte, vai começar o jogo muito forte. Por coincidência, o jogo entre Grêmio e Cruzeiro, te digo que a melhor equipe que enfrentou o Cruzeiro no Mineirão foi o Grêmio. E, se saísse vitorioso, não era surpresa, pela postura que o Grêmio teve. Além de marcar os pontos fortes, temos que manter a atitude que nós tivemos de ter a saída de bola, o toque de bola rápido no meio de campo e a velocidade do lado do campo, que fez a diferença para a gente.  

Formação do ataque para a partida

– A gente ficou muito feliz com o desempenho do Henrique, o próprio Rafinha. Conseguimos recuperar o Rhayner, o Kieza. Vamos ver de que forma podemos montar. Temos que ver de uma vez por todas a importância do grupo, do elenco. Temos que fazer de tudo para dar a vitória para o Bahia. Temos que trabalhar para essa instituição.  

Injúrias raciais sofridas pelo goleiro Aranha

– Sobre o ato de racismo, eu condeno, é óbvio. Acho que não pode punir o clube. Sou contra. Não tem como um clube monitorar todos os torcedores e ver o que eles vão falar. Os torcedores que cometeram o ato têm que ser penalizados, é uma minoria da grandeza do Grêmio. Acho que, no futebol, a gente se conforta pelo fato de dizer que é cultural. E a gente começa a entender mesmo. Porque, independente de sociedade, de classe, entra-se no estádio de futebol, num campo, e tudo pode. É só você ficar ali do nosso lado, ver o que a gente é xingado, treinador, todos os nomes. O jogador, a qualquer erro, eles falam o que vem na cabeça. E aí está do lado do filho, está do lado da esposa, da mãe… A arbitragem da mesma forma. Porque é cultural. Está no estádio, vale. Nesses dias eu fui ao teatro, e o cara errou na peça, esqueceu a fala. Sabe o que aconteceu? Aplaudiram. Eu falei: “Se é no futebol, ele não saía do teatro”. É cultura. A gente vai ao cinema, tem regras. Vai ao teatro, tem regras. No show, tem regras. E, no futebol todo mundo externa o que pensa. Aí você começa a dar exemplo a uma criança. Eu não estou dizendo que eu sou diferente. Mas, culturalmente, muda. Mas o que se faz? Esses dias um amigo meu foi assaltado. Levaram o carro. A primeira coisa que falaram foi “aconteceu alguma coisa você?”. Ele respondeu: “Não, não. Graças a Deus, só levaram o carro”. Quer dizer, a gente está se confortando. Só levou o carro, está bom. Está errado! Está errado! Nós precisamos de punições severas, realmente fazer a sociedade entender que, em 2014, não cabe mais esse tipo de discriminação. Isso não cabe mais, ainda mais no Brasil, que é uma mistura de raça. Todo mundo convive com todo mundo. Tem que haver uma concorrência, mas tem que ser dentro de uma civilidade. Eu condeno, mas não condeno o clube. Tem que condenar a pessoa que faz, aí, sim, essa pessoa vai entender que ela está ali para ver um espetáculo e que ali tem seres humanos, que são os “artistas”, os jogadores, os que estão envolvidos. Acho que falta um pouco de respeito e educação nesse país. É investir mesmo em educação para que realmente a gente possa ser um país diferente.

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