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Média de público é dor de cabeça para a Fonte Nova

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Abaixo da projetada, média de público é dor de cabeça para a Fonte Nova

Projeção feita na assinatura do contrato previa que média de presença de torcedores no estádio seria de pouco mais de 27 mil pagantes. Média atual é de cerca de 13 mil

Cinco jogos, quase 250 mil pessoas e uma média de público de 49.897. Durante a Copa do Mundo, a Fonte Nova viveu dias de sonhos. No entanto, a volta à realidade ainda passa distante dos dias de glória. A média do estádio no Campeonato Brasileiro é de  torcedores. Bem abaixo dos números da Copa, mas também abaixo das estatísticas imaginadas na projeção que conduziu a assinatura do contrato da concessionária que administra o estádio com o governo baiano. Na ocasião da assinatura, a média de público prevista para o estádio era de 27.140 pagantes.

A situação da Fonte Nova vai na contramão das arenas da Copa, no definitivo modo legado. Na 16ª rodada, por exemplo, cinco dos 12 estádios da Copa do Mundo receberam mais de 20 mil pagantes. A única exceção foi justamente o estádio baiano. Nesta rodada, apenas 9.926 torcedores pagaram ingresso para ver Bahia 0 x 0 Criciúma. Ainda segundo esses números, a má fase do Bahia, que ocupa a zona de rebaixamento, não explica a média, uma vez que o maior público da rodada teve como mandante um clube que luta contra o rebaixamento, o Flamengo, que levou 37.726 pessoas ao Maracanã.

Bahia x Goiás (Foto: Thiago Pereira)

Na 14ª rodada da Série A, Bahia x Goiás teve público de 8.085 pagantes

No Campeonato Baiano deste ano, a média de público da Fonte Nova foi de 14.195 pagantes, enquanto no Campeonato Brasileiro, até o momento, a média é de 12.444. A média do ano até o dia 2 de setembro – sem a Copa do Mundo e contando também Copa do Brasil e Copa do Nordeste – é de 13.319 torcedores pagantes por jogo. No ano passado, a média foi de 19 mil pagantes por partida do Brasileirão.

Os números de público com futebol não são o esperado, mas a Fonte Nova ressalta outros públicos de eventos fora do esporte como fonte de renda. Em 2013, 38 eventos não esportivos foram realizados no estádio, entre eles, os shows de Ivete Sangalo, David Guetta e Elton John, o que somam mais 160 mil frequentadores do estádio, além de quatro mil pessoas que passaram pela Arena nos tours. Ao todo, em 2013, 800 mil pessoas passaram pela praça esportiva. Apesar da média inferior até o momento, a ideia do consórcio é aumentar os números para 2014, mas a missão não parece ser das mais fáceis.

Outra parte envolvida na administração da arena, o governo da Bahia mostra confiança nos métodos do consórcio para atrair mais público ao estádio.

– No caso de frequência de torcedores em jogos de futebol, bem como valor do ticket médio, a Fonte Nova Negócios e Participações (empresa constituída para construção e operação da arena) tem adotado medidas diversas para melhorar estes indicadores – disse o Estado através de nota enviada pela Secretária de Trabalho, Renda e Esporte, sem citar, no entanto, quais estratégias seriam essas.

BAIXA MÉDIA DE PÚBLICO PODE DAR PREJUÍZO AO ESTADO

Durante a Copa, média de público era de quase 50 mil pessoas

Fonte dos gols durante a Copa, a arena baiana precisa encontrar meios de se tornar uma fonte de lucros. No entanto, os números relativos à média de público na temporada indicam que a praça esportiva ainda não “se paga” e que o governo da Bahia precisa mexer ainda mais nos cofres públicos para evitar prejuízos ao consórcio Arena Fonte Nova, responsável pela gestão do estádio.

Isso porque o contrato da Parceria Público-Privada (PPP) feito entre o Governo da Bahia e a empresa que venceu a concessão de uso do estádio pelos próximos 35 anos prevê uma meta de lucros mensal. Caso esta meta não seja atingida, o governo baiano precisa pagar 50% do valor correspondente à diferença entre aquilo que foi projetado de ganhos e o que realmente foi arrecadado. Os outros 50% ficam sob responsabilidade do consórcio.

Além desse valor, que pode ter variação, o estado baiano já paga os custos da Arena, em 15 anos. O estádio custou R$ 689,4 milhões – quase R$ 100 milhões a mais do que o previsto inicialmente. As parcelas são pagas sempre no dia 10 de cada mês, conforme prevê o contrato de Parceria Público-Privada (PPP) acordado entre o Governo do Estado e as construtoras OAS e Odebrecht, responsáveis pela construção e manutenção do local. O valor fixo mensal desembolsado pelo governo baiano é de cerca de R$ 8,5 milhões por mês. Ao final do prazo de uma década e meia de pagamento, o estado terá repassado R$ 1,4 bilhão ao consórcio Arena Fonte Nova.

Já os valores variáveis não são de conhecimento público, mas as projeções feitas ainda em 2009 pela consultoria internacional KMPG, e que estão atreladas ao contrato da PPP, indicam que a Fonte Nova ainda está longe das metas projetadas. De acordo com o estudo que direciona o contrato da PPP, a média de público da Fonte Nova deveria ser de 27.140 pagantes, bem abaixo dos atuais números do estádio.

NA PONTA DO LÁPIS

O valor médio do ingresso da Fonte Nova é de cerca de R$ 28 reais. Com a atual média de público na casa dos 13 mil torcedores, a previsão de renda média anual obtida apenas com as partidas de futebol, levando em conta que o estádio receberá em 2014 ao menos 25 jogos, é de R$ 9,1 milhões. Dentro da projeção feita no contrato da PPP, com o valor médio de ingresso atual, a renda para o mesmo número de jogos deveria ser de quase R$ 19 milhões. Levando-se em conta apenas estes valores de projeção de lucro e lucro real, consórcio e governo precisariam colocar no caixa quase R$ 10 milhões. Deste montante, o estado seria responsável por quase R$ 5 milhões.

ESTADO E ARENA DESTACAM RENDAS ALÉM DA BILHETERIA

Em entrevista ao GloboEsporte.com, em abril deste ano, o presidente da Arena Fonte Nova, Marcos Lessa, falou sobre o primeiro ano do equipamento e, quando questionado se o estádio era lucrativo, confirmou que os números ficaram abaixo da média esperada, apesar destes serem superiores à média do Campeonato Brasileiro. O gestor apresentou argumentos para o que chamou de “ano apertado”.

"Ainda não atingimos os números que queríamos", diz Lessa

– A gente tem uma precisão de receitas e despesas. Diria que o ano de 2013 foi bastante apertado. Não atingimos o público médio, apesar de estarmos acima da média do Brasileiro. Existe uma discussão do motivo pelo qual o público vem caindo nas arenas. Em alguns casos, se cogita a precificação, o que não é o caso da Fonte Nova. A Arena já se posicionou em relação a preço, não temos mais reclamação com isso, nos tornamos acessíveis, e vai melhorar com o season ticket, que é o ingresso por temporada. Foi um ano difícil. Poderia ter sido melhor. Não atingimos a meta, mas não ficamos muito distantes. Tivemos dois episódios no ano passado que não estava no plano de negócios. A Copa das Confederações, que o estádio foi cedido por quase dois meses. E a intervenção do Bahia. Foi a primeira vez que houve uma intervenção tão significativa como aqui. Isso já é passado. Estamos muito mais próximos do plano de negócios do que no ano passado. […] Apesar de ter uma média superior à do restante do país, ainda não atingimos os números que queríamos, que era de 25 mil torcedores por jogo. Estamos caminhando para isso – disse o presidente da Arena, em abril desse ano.

A média desejada pelo gestor é praticamente a mesma que garante o lucro do equipamento a partir do estudo da KPMG. No entanto, com a média de 2014, seria preciso um aumento de 50% do público nas partidas realizadas na Arena para alcançar a média prevista no estudo

Dentro deste cenário, estado e consórcio dividem o déficit. Ainda assim, a administradora da Arena crê que a situação ainda está dentro do esperado para essa fase inicial de operação. E ressalta que, além da bilheteria, o estádio conta com outros meios de rentabilidade.

– A Arena Fonte Nova, com pouco mais de um ano de operação, já atua em suas mais diversas formas de geração de receita. Além da bilheteria dos jogos e estacionamento, também obtém rentabilidade na comercialização de camarotes, assentos premium, patrocínios e espaços de ativação de marca. Destaca-se ainda a operação do tour e locação de espaços para eventos, congressos, reuniões etc. É importante ressaltar também que fomos a primeira arena a assinar um contrato de naming rights, o que gera uma receita de R$ 10 milhões por ano. Apesar dos custos de manutenção do equipamento, os relatórios demonstram que os primeiros 15 meses de operação atendem a previsão feita para o período e o resultado segue satisfatório – informou a concessionária por meio de nota enviada ao GloboEsporte.com.

Arena Fonte Nova (Foto: Divulgação)

Estádio baiano tem capacidade para cerca de 50 mil torcedores

O governo também demonstra tranquilidade em relação aos números atuais e aponta que não é possível falar em lucro ou prejuízo avaliando apenas a média de público apontada no estudo de viabilidade anexado ao contrato assinado entre estado e empreiteiras. Por meio da Secretária de Trabalho, Renda e Esporte, responsável pela assinatura do contrato, o governo diz que, mesmo com os números atuais, não há possibilidade de algum tipo de reajuste no contrato.

– O Governo do Estado não cogita fazer qualquer reequilíbrio econômico-financeiro. Quanto às receitas, é preciso fazer uma análise do conjunto de itens que a compõem, inclusive receitas oriundas da comercialização de naming rights, de publicidade, shows, eventos etc. – afirma a nota do governo enviada ao GloboEsporte.com.

Ainda segundo o governo, “o contrato de PPP prevê compartilhamento de lucro ou prejuízo entre as partes durante sua vigência. Superátiv ou déficit de receitas é resultado direto da operação da Arena Fonte Nova. E para fazer esse acompanhamento, o contrato de PPP prevê, em seu Anexo IV, o Quadro de Indicadores de Desempenho (QID), onde estão estabelecidos vários critérios de mensuração da operação”. Em caso de lucro na administração da Arena, o estado poderia até mesmo fazer uso dos valores para uma redução do repasse mensal feito ao consórcio.

Ainda na nota divulgada ao GloboEsporte.com, o governo esclarece que, após a assinatura do contrato, houve um aditivo ao contrato que teria reduzido custos anuais dos cofres públicos.

– O único reequilíbrio econômico-financeiro feito foi o Aditivo 2, quando o Governo do Estado, por meio da Setre, e a FNP assinaram termo aditivo ao contrato de PPP reduzindo a contraprestação pública de R$ 107 milhões para R$ 99 milhões/ano, o que representou uma diminuição de oito milhões/ano de reais. Isso foi possível porque, quando da assinatura do contrato de PPP, as regras de financiamento ainda não estavam definidas pelo BNDES, o que só ocorreu posteriormente, com o anúncio do Programa ProCopa Arenas. As contraprestações pagas pelo Governo do Estado dizem respeito ao custo relativo às obras, bem como aqueles relativos à manutenção e operação da Arena, às despesas pré-operacionais, aos encargos financeiros, tributos e remuneração do privado pelas inversões realizadas ao longo do período de concessão.

Em meio ao números diferentes entre os projetados e os reais, o indicativo é de que a Arena Fonte Nova começa a custar mais caro do que o projetado. Em uma equação onde o contribuinte é peça chave, é preciso aguardar novos passos: seja o aumento do público frequentador do estádio ou o incremento de eventos fora do mundo do futebol para balancear as contas.

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