Postado por - Newton Duarte

O gol de Raudinei que só eu vi

O gol de Raudinei que só eu vi

Acho que esta só eu vi. E é a mais pura verdade.

07 de agosto de 1994. Final do Campeonato Baiano. O Bahia jogava pelo empate. Mesmo tendo perdido vários Ba x Vixes, chegamos na vantagem. O dia para mim havia sido complicado: Bateram no meu carro pela manhã, problemas com o “alto-comando“ pela tarde e tudo isso permeado com a tensão da final. Iria usar o jogo como desculpa para uma… “Saída pela direita…”. Estava com tudo programado.

A ideia inicial era nem ir ao estádio. Mas, não aguentei e fui. Calculei assistir ao primeiro tempo da partida e sair no intervalo, mesmo correndo risco de não ver a conquista do título. Para minha decepção, o time não jogava bem e sofreu um gol do adversário. Isto só me estimulou a dar segmento ao meu plano original.

Fui me vestir no Apartamento de minha falecida Mãe, que residia na Rodolfo Pimentel, defronte ao Posto Barbalho, na Av. Bonocô. Cheiroso e ‘vestido’ para matar, fui então para o playground do prédio com meu “walkman” (porra! Isso é velho, hein?) onde aguardaria a chegada da amiga que me levaria para a “Reunião anual dos observadores de OVNIS”. Na época, era o único motivo que me faria não assistir aquela final.

Não conseguia desgrudar o ouvido dos fones aparelho. O jogo se arrastava e alguns, sempre poucos, mais sempre muito chatos, torcedores do Vicetória que me viam, tiravam um sarro de minha cara. Tudo parecia dar certo para os infelizes. O Bahia não demonstrava poder de reação.

Para não continuar a sofrer “bullying” (isso não existia naquela época), fui para o muro do outro prédio para ficar sozinho. Já eram 40 minutos do 2º Tempo e as esperanças balançavam, mais não morriam. Com o Bahia é sempre assim. De repente, vejo luzes fortes acenderem no referido Posto: Era um Trio Elétrico que começava a se movimentar em direção a Fonte Nova. Pensei num impublicável palavrão e continuei a observar a irritante cena.

Aos 44 minutos, anunciados pelo narrador, o caminhão inimigo desenrolou uma “enorme” bandeira do Vice que tomava toda sua lateral, iniciando seus acordes, manobrando em direção à pista da Avenida. Ato continuo, ouço nos fones: “Jean… Tá difícil para o Bahia… Missinho dá um chutão, Sousa…”. Acho que naquele momento o mundo ficou em silencio. Só consegui ouvir: O grito gooooolll e o nome de Raudinei. Atônito, não consegui comemorar.

Meus olhos não desgrudavam do Trio Elétrico. O Bonocô estava cheio de carros, a movimentação era intensa… Foi quando vi: as luzes sendo apagadas rapidamente, a bandeira enrolada e os membros da banda discutindo com os motoristas dos carros que iam em direção à Fonte Nova, pois o caminhão ficou parado e atravessado na pista. Quase teve briga.

Imaginei a cara dos músicos ali, sem saber o que fazer. A cara dos dirigentes do Vicetória, discutindo se pagariam ou não, já que não houve a prestação dos serviços. A cara de cada torcedor que já se julgava campeão… Tudo isso em 1 segundo. E só aí, saí gritando: É Campeão POOOORRRRAAA!! Não ficou um gozador adversário para me fazer companhia. Sumiram todos. Não conseguia parar de rir. Eles não me aguentariam mesmo.

O resto da noite pouco importa. Discos Voadores foram avistados. Mas, ver aquela cena do Trio Elétrico inútil, não teve preço. Foi tão bom quanto ser campeão.

Foi o gol de Raudinei que só eu vi


Texto originalmente escrito em 29 de outubro de 2012, para o blog alnesportes


Luis Peres é Cofundador da União Tricolor Bahia e colunista do torcidabahiapontocom