Um país sem respeito próprio

No bar de Russomano, homenagem a Marin tem ufanismo e declarações de amor

Entrada do Bar do Alemão: ao fundo, Marin, Queiroz e Del Nero dividem o telão

José Maria Marin, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), teve sua noite dos sonhos na véspera da abertura da Copa das Confederações. Ganhou elogios de políticos experientes e foi fervorosamente defendido das críticas que recebe. Isso diante de cartolas que ele mesmo convidou, pagou passagem e estadia em Brasília, local do jogo entre Brasil e Japão neste sábado e que terá acompanhamento pelo Placar UOL Esporte.

O evento ocorreu no Bar do Alemão, que tem como um dos sócios o candidato a prefeito de São Paulo derrotado na última eleição, Celso Russomano. Lá, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), entregou a Marin a Ordem do Mérito de Brasília. No entanto, segundo a assessoria do governador, foi a CBF a organizadora do evento.

Antes de ser homenageado, Marin ganhou a defesa de Josafá Dantas, presidente da Federação Brasiliense de Futebol. "O senhor vem sendo alvo de acusações levianas", disse o dirigente em seu discurso, referindo-se a Marin. Ele também elogiou Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, por trazer a Copa do Mundo ao Brasil.

Em seguida, discursou o deputado Marco Maia (PT-RS), que pediu uma salva de palmas e vivas para a CBF.

Em sua vez, Agnelo chamou Marin e Marco Polo Del Nero, também homenageado, de grandes amigos de Brasília. "A ordem do mérito é para pessoas dignas da gratidão de Brasília. E esses dois prestaram notáveis serviços ao Brasil e a Brasília", afirmou o governador.

O próximo a pegar o microfone foi Marco Polo Del Nero. Um dos mais empolgados da noite, o presidente da Federação Paulista e vice da CBF começou fazendo uma declaração de amor para Carolina Galan, sua mulher. "Obrigado por vivermos há três anos juntos".

Depois, o dirigente se inflamou ao pedir que os presentes gritem pela seleção no jogo deste sábado, contra o Japão. "É isso que temos que fazer, Brasil, Brasil, pra frente, Brasil", berrou, socando o ar.

"Pra frente, Brasil" é o título da música que embalava na Copa de 70 a seleção brasileira. Para os militantes de esquerda da época, a seleção nacional era usada pelo regime militar para desviar a atenção dos reais problemas do povo. Marin até hoje é criticado por sua relação com a ditadura.

Já o principal homenageado do encontro também fez declaração de amor à sua mulher e entregou um pin de ouro da CBF e uma camisa da seleção para Agnelo.

A demonstração de trânsito com alguns políticos, apesar da rejeição que sofre por parte da presidente Dilma Rousseff, só não foi maior porque prestigiaram o jantar poucos presidentes de clube, como Márcio Della Volpe, da Ponte Preta, e Eduardo Bandeira de Mello, do Flamengo.

Marin convidou presidentes de times da Série A e todos presidentes de federações estaduais para viajarem a Brasília. Eles formam o colégio eleitoral que irá escolher o próximo presidente da confederação no primeiro semestre do ano que vem.

Presentes em bom número, os presidentes de federação aproveitaram para fazer costuras políticas. Nem todos estão alinhados com Del Nero, chamado por Marin de irmão. Há quem queira lançar um novo nome, já que o opositor Andrés Sanchez também sofre rejeição.

O tom político do evento é uma demonstração de como a política estará presente na Copa das Confederações. Na política nacional, as aparições nos jogos mais importantes do torneio são vistas como aquecimento para eleição de 2014.

"Tem gente que nem gosta de futebol, mas que quer ir na abertura da Copa das Confederações. Politicamente é importante", disse Marco Maia.

Os Estados compraram ingressos para distribuir como quiserem. As tribunas devem se transformar em palanques políticos, tanto na esfera nacional como na futebolística.

Fonte e foto: Ricardo Perrone, do UOL, em Brasília