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‘Zagueiro’ e ‘cabeça quente’: Zé Roberto fala do início da carreira

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Cria da base do Bahia, Zé Roberto lembra início da carreira como zagueiro e admite que já foi "cabeça quente"

Atacante do Bahia voltou recentemente ao time, após se recuperar de uma cirurgia no joelho

Atacante do Bahia, Zé Roberto chegou ao Fazendão quando tinha apenas 15 anos. Hoje, com 21, ele já atua pelo time profissional e busca oportunidade entre os titulares. Figura ímpar e marcado pelo carisma, ele lembra as dificuldades que viveu na carreira e revela que já jogou até de zagueiro.

Confira, na íntegra, o bate-papo de Zé Roberto com o jornal Correio.

Quando despertou o desejo pro jogar futebol?

Quando eu era pequeno. Meu pai sempre jogou futebol lá em Teixeira de Freitas, que é a minha cidade. Ele era zagueiro e eu ficava acompanhando, aí com sete ou oito anos eu fui para uma escolinha de futsal de um amigo dele, que era o Jacarandá. Foi quando comecei a ter o primeiro contato com a bola.

Zé Roberto posa com o pai, de quem herdou o nome e a paixão pelo futebol (Foto: Arquivo pessoal)

Seu pai jogou profissionalmente?

Meu pai sempre jogou em Teixeira de Freitas mesmo, mas nunca profissionalmente. Ele jogava bem até. Ele tem o mesmo nome que eu, mas era conhecido como Betão. Quando chegou em 35, 36 anos, ele rompeu o ligamento e fez cirurgia. Como voltou antes do tempo, fez pouco trabalho de fisioterapia e não fortaleceu a musculatura, machucou de novo e parou de jogar.

Hoje ele só joga comigo. Brincamos quando vou lá em casa, é uma festa. Além dele, meu irmão (Jonas) também fez escolinha comigo, mas ele era preguiçoso demais. Ele é três anos mais velho que eu e ficava dando migué para ir para o treino, aí deixou para lá (risos). Mas quando ele me vê realizando o sonho de ser jogador, fica feliz como se fosse ele.

Você sempre foi atacante?

Eu comecei como zagueiro, por causa do meu pai (que também se chama Zé Roberto). Eu era o fixo no time, aí fui transferido na escola, fui para o Instituto Francisco de Assis, ainda na minha cidade. Depois disso participei da Copa Juninho, que era de meninos de 14, 15 anos, que era na minha idade na época.

Joguei de zagueiro e a gente começou a perder. Aí fui para a ala e continuamos perdendo. No mesmo jogo decidi ir para o ataque e vencemos. Aí não quis sair mais. Foram 10 jogos no total e eu fiz 49 gols.

Como migrou para o futebol de campo?

Foi depois dessa competição. Nunca tinha jogado em campo, aí fui para escolinha Portela, que tinha gramado. O professor de outra escolinha me viu jogando lá e me levou. Com essas observações, acabei indo para o Bahia, em 2009. Eu tinha 15 anos quando cheguei no Fazendão.

(Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia/Divulgação)

Abriu mão de muita coisa para seguir a carreira?

Demais. Lá na minha cidade, a gente não era rico, mas sempre tive boas condições de vida. Eu estudava em uma escola muito boa e, quando cheguei em Salvador, com 15 anos, a realidade era totalmente diferente. Passei muita dificuldade no Bahia, além de ter deixado família, estudo, amigos, tudo para trás. Passei muita coisa ruim, mas que sei que me fortaleceu. Sofri demais mesmo, principalmente na base.

O que aconteceu?

No primeiro ano foi legal, me adaptei, mas no segundo já foi bem difícil. Chegou um treinador que não gostava de mim, por eu ainda ter características do futsal, e ele simplesmente me deixou de lado. Não tentou me orientar, ajudar, nada. Ele me proibia de jogar, de viajar com o time. Teve uma viagem para fora do país que ele não deixou eu ir, eu chorei  muito, porque todo mundo foi.

Você parece ser muito tranquilo. Sempre foi assim?

Que nada. Eu, quando jogava na infância, era sempre o mais bravinho. Odiava perder, eu chorava e ficava muito chateado. Eu ainda era assim na base, mas melhorei muito. É porque tem muita gente que não sabe o que a gente passa, falam mais do que sabe.

Tudo isso é muito chato. Quando vejo algumas críticas, procuro relevar. Aquelas pessoas não sabem metade do que eu passei. Eu sofri muito, então ficava com raiva de acusações que não eram verdade. Ficava nervoso, mas já não me afeta mais. Eu relevo.

Sente falta de atuar na zaga?

Ataque é muito melhor porque faz gol, mas quando rola rachão no Fazendão eu vou para a zaga várias vezes. É legal demais. Eu jogo bem na zaga, pô, sério mesmo. Aí chega no rachão e eu chego junto, aviso que sou zagueiro e sai de baixo (risos).

Zé Roberto chegou ao Bahia quando tinha apenas 15 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Quem é seu companheiro de quarto na concentração?

Eu mudo sempre. Normalmente fico com Jean, Robson, Bruno Paulista, Patric…sempre alguém da base.

Rola muita resenha?

Conversamos de tudo. Normalmente a gente fica pensando no jogo que vamos ter no dia seguinte, analisando o que precisa ser feito para ganhar, mas também rola descontração. Lembramos as brincadeiras da infância, falamos de coisas sérias como o que vivemos no passado, as dificuldades que passamos. E, claro, a gente também vê muito jogo de futebol na TV.

Vocês cornetam?

Claro! Todo mundo corneta a gente quando estamos em campo. A gente não vai cornetar? A gente corneta muito!

É fã de algum jogador?

Claro. Eu sonho em jogar com o Tardelli, o cara é fera demais. Antigamente, meu sonho era poder jogar com Ronaldo, mas agora não dá mais, né? Além deles, sou fã do Neymar também. Gosto muito de ver os dois jogando.

Qual o seu sonho dentro das quatro linhas?

Lógico que, como quase todos os jogadores, eu tenho o sonho de poder jogar fora do país algum dia. Mas o meu maior sonho atualmente, é poder dar um título importante para o Bahia. Sério mesmo. É meu primeiro clube profissional, eu queria poder fazer história aqui, sabe?

Não sei se em um, dois ou três anos, mas queria um título de peso. Eu queria muito ser campeão brasileiro. Além disso, quero muito poder jogar na Seleção Brasileira algum dia também.

E fora dos campos?

Meu sonho de vida é ter um filho (risos). Eu sou louco por menino pequeno, adoro criança. Queria ter filho ainda novo, para poder cuidar. Não queria ser pai muito velho não. Mas também tenho um sonho pessoal muito grande, que não sei ainda se vou conseguir. Se eu ganhar muito dinheiro, vou fazer um instituto. Eu gosto demais de ajudar as pessoas, nem que seja uma coisa pequena, sabe?

Quero fazer uma escolinha gratuita. Lá em Teixeira nossa casa tem um campinho e várias vezes meu vizinho, que é criança, leva um monte de criança para jogar lá. Fica todo alegre, todos querendo seguir a carreira. Isso mexe comigo. Queria poder começar o sonho de alguém, ajudar no primeiro passo.

Qual foi a sensação quando estreou no profissional?

A primeira vez que eu fui relacionado foi em 2013, contra o Atlético-MG, mas não entrei no jogo. A primeira vez que entrei em campo foi contra o Vitória da Conquista, em 2014, pela Copa do Nordeste. O Bahia ganhou do Vitória da Conquista por 1×0 . Eu não fiz gol. Entrei até bem, foi a realização de um sonho, mas não foi como eu queria. Aliás, naquele ano nada foi como eu queria.

Por que?

Aconteceram muitas coisas ruins comigo, eu sofri muito. Muita coisa aconteceu nessa época. Não tive muita oportunidade no time também. Comecei o ano mal, também por culpa minha que não correspondi bem em campo, e acabei emprestado. Fui para o Bahia de Feira e ficava em um lugar todo isolado. Várias vezes eu não tinha como ir comprar nada e ficava sem comer, com fome.

Ficava pensando se valia à pena. Pensei em desistir, porque eu tinha tudo em Teixeira de Freitas. Enfim, a gente passa muita coisa que ninguém vê, ninguém sabe. Ano passado também fui pro Salgueiro e vivia no sertão.

É complicado demais. Aí sim, eu quis largar tudo, mas chega uma hora que você entende que aquilo foi escolha sua e percebe que tem que lutar até o fim para conseguir o que quer.

Quando as coisas mudaram na sua carreira?

Para mim, minha estreia mesmo foi esse ano, que as coisas estão alavancando. Tudo começou no jogo contra o Shakhtar, que foi quando fiz meu primeiro gol como profissional também. No dia desse jogo, eu havia chegado de empréstimo, porque fiz um ano ruim no Bahia e não tive oportunidades.

Não sei se foi erro meu, se faltou oportunidade, só sei que não fui bem e acabei emprestado. Sei que voltei sem prestigio nenhum e talvez nem entrasse em campo, mas tive a chance. Entendi que, a partir dali, dependia só de mim, porque eu também seria mais visto pelo técnico que tinha acabado de chegar. Não dependia mais de sorte, nem nada. Aquele dia abriu as portas para mim.

No decorrer dos jogos, muitas vezes você recebe a missão de substituir Kieza, artilheiro do time. É um peso para você?

Muitas vezes pesa. É complicado, porque eu acesso muito as redes sociais e acabo lendo muita coisa que não queria. Muitos torcedores comentam ‘Ah, o Kieza saiu. E agora? Quem vai fazer gol nesse time?’ Além de muita gente da imprensa que também fala que não tem mais ninguém que sabe finalizar.

Isso tudo é muito ruim, porque aqui tem outros jogadores também, que trabalham todos os dias e se dedicam para fazer igual ou melhor que Kieza. A gente sabe que ele é muito bom, é indispensável, tanto que muitos outros times sempre estão de olho nele, mas incomoda ouvir tanta coisa.

Parece que só confiam nele e em mais ninguém. Os outros também estão ligados, espertos para marcar, dar assistência.

O que passa na cabeça quando você fica cara a cara com o gol?

Depende muito de quanto está o jogo. Quando estamos perdendo, eu tento esfriar a cabeça e fazer o gol a qualquer custo. Muitas vezes erramos em lances fáceis por conta do psicológico, daquela pressão de ter que empatar.

Quando estamos ganhando é melhor, porque a responsabilidade passa a ser toda do goleiro. Aí eu tento caprichar um pouco mais para fazer um gol mais bonito, mas o importante é a bola entrar.

Você sempre deixa o estádio com o celular em mãos. O que você faz quando acaba o jogo?

Eu moro sozinho, então sempre ligo para o meu pai. Quando fiz dois gols contra o Mogi Mirim, liguei e ele estava todo eufórico. Ele estava em casa com meu irmão, minhas duas irmãs, meus cunhados. Todos estavam felizes demais e me motivam demais.

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